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Geopolítica antes das manchetes
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Rússia e a Duma eleita pela guerra

O Rússia Unida ficou com 355 das 450 cadeiras, o maior número da sua história, e 49 veteranos da guerra entram no parlamento, mais que a bancada comunista. A votação estreou nos territórios ucranianos ocupados e as pesquisas de boca de urna davam 49,4% a quem a comissão eleitoral creditou 57,9%.

A comissão eleitoral russa anunciou em 21 de setembro de 2026 o que ninguém esperava diferente: o Rússia Unida ficou com 355 das 450 cadeiras da Duma, o maior número já obtido pela legenda, segundo a Comissão Eleitoral Central. Com 95,18% das urnas apuradas, o partido tinha 57,83% dos votos de lista, contra 13,81% do Partido Comunista da Federação Russa (PCFR), 8,98% do Partido Liberal-Democrata da Rússia (PLDR) e 7,96% do Novo Povo, como registrou o Brasil de Fato. A participação oficial chegou a 59,32%, apresentada pela presidente da comissão, Ella Pamfilova, como a maior da história em eleições desse nível – número que a série russa não confirma sozinha: o Kommersant lembrou que a participação passou de 60% em quatro eleições anteriores, a última delas em 2007.

O que a comissão passou a publicar depois divergiu do que a própria televisão estatal havia projetado. As pesquisas de boca de urna do instituto estatal VTsIOM davam 49,4% ao partido, e as do instituto de pesquisas INSOMAR, 52,8%, segundo a Bloomberg. A apuração oficial terminou 8,4 pontos acima da primeira delas. Existe explicação técnica: as seções do Extremo Oriente, onde o partido governista vai melhor, entram primeiro no sistema, e a mesma ordem de contagem apareceu em 2016 e em 2021. Naquele ano, foi a inclusão do voto eletrônico de Moscou que virou a contagem na capital e retirou dos comunistas uma vitória que as urnas de papel lhes davam, como noticiou o serviço de análise bne IntelliNews.

A bancada que a própria legenda corrigiu

O resultado que muda a composição da casa veio de outra conta. O secretário-geral do Rússia Unida, Vladimir Yakushev, anunciou em 21 de setembro de 2026 que o partido havia eleito cerca de 86 veteranos da guerra da Ucrânia. Horas depois, a agência estatal RIA Novosti retirou a nota a pedido da legenda, e a agência estatal TASS publicou a correção: 49. A diferença entre as duas cifras é o tamanho de uma bancada. Os 86 deputados seriam quase 19% da Duma; os 49 são cerca de 11%, e qualquer um dos dois números supera os 40 do PCFR, a segunda maior força da casa, como mostrou o G1.

O número que a legenda sustenta, 49, faz dos participantes da guerra o maior bloco dentro da própria bancada governista. As comissões eleitorais registraram cerca de 200 candidatos com participação no conflito, apresentados pelo Kremlin como a “elite verdadeira” do país, segundo a agência Associated Press (AP).

O que estava decidido antes da urna

A votação, de três dias, foi a primeira para a Duma desde a invasão em larga escala de fevereiro de 2022 e a primeira em que o eleitor pôde votar por via eletrônica em escala nacional – em 2021 o voto remoto existia em 17 regiões, segundo o bne IntelliNews. Foi também a primeira em que Moscou recusou o convite da Organização para a Segurança e a Cooperação na Europa (OSCE) para acompanhar a votação, como registrou o Kyiv Post.

O único partido registrado que fazia oposição à guerra ficou fora do bilhete nacional. Em 10 de agosto de 2026, o Supremo Tribunal da Rússia anulou a lista federal do Iabloko a partir de uma ação do Rodina, partido pró-guerra, apoiada pela Procuradoria-Geral, segundo o Kyiv Post e a ukrmedia. O Iabloko não tinha cadeira nenhuma na Duma que se encerrou; o que ele oferecia era um veículo legal para o voto contrário à guerra, e foi isso que saiu do bilhete. Candidatos isolados da legenda ainda puderam disputar distritos.

A estreia nos territórios ocupados

Pela primeira vez, a votação para a Duma ocorreu também nas regiões ucranianas ocupadas de Lugansk, Donetsk, Zaporíjia e Kherson, além da Crimeia, que participou pela segunda vez, segundo a Deutsche Welle. Nem Kiev nem os governos ocidentais reconhecem o pleito ali.

“As supostas eleições para a Duma representaram mais um grande retrocesso para a democracia russa. Seu resultado nunca esteve em dúvida”, afirmou a chefe da diplomacia da União Europeia, Kaja Kallas, que disse que o bloco sancionaria quem viabilizou a votação nos territórios ocupados, conforme o G1.

A guerra como base social

O último dia de votação coincidiu com o maior ataque aéreo ucraniano contra Moscou desde o início da guerra. O prefeito da capital, Sergei Sobyanin, falou em cerca de 1.600 drones, 450 deles dirigidos à cidade, com duas pessoas mortas na periferia e uma refinaria atingida. O presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, comentou o resultado no dia seguinte, dizendo que a resposta de longo alcance ucraniana teve impacto significativo na região de Moscou, segundo a Deutsche Welle.

A campanha correu sobre um país com restrições à internet em várias regiões, escassez de combustível e preços em alta, e sob o rumor de uma nova onda de mobilização, negada duas vezes por Vladimir Putin em três dias de setembro, segundo a AP. No exílio, a oposição tentou transformar a eleição em medição: Yulia Navalnaya, viúva de Alexei Navalny, convocou os contrários à guerra a votar ao meio-dia de domingo, 20 de setembro de 2026, na ação chamada “Meio-dia pela paz”. A estratégia de apoiar qualquer partido que não o Rússia Unida foi apresentada por Maxim Katz e pela própria Navalnaya em 14 de setembro de 2026, segundo o Kyiv Independent. O Iabloko recomendou anular o voto na lista partidária, e vídeos de jovens russos segurando maçãs – iabloko significa maçã em russo – circularam nas redes.

O que a próxima Duma herda

A casa que se encerrou aprovou leis que cortam de russos exilados o acesso a serviços bancários e consulares, ampliou a elegibilidade de pessoas com antecedentes criminais para contratar com o Ministério da Defesa e teve o menor número de candidatos independentes da série recente, segundo o Moscow Times. A nova tem dois terços das cadeiras nas mãos de um partido só, o que permite mexer na Constituição sem o apoio de outra legenda.

Os resultados definitivos estão previstos para 25 de setembro de 2026. O que a contagem final não altera é a composição: a Duma que assume em outubro de 2026 tem a maior bancada governista da história recente e, dentro dela, o primeiro bloco de veteranos com peso próprio – deputados cujo mandato e cuja biografia dependem da continuação da guerra que os elegeu.