Moscou sob mil drones: a guerra ganhou frente doméstica
No último dia da votação russa, a maior onda de drones da guerra atingiu a região da capital, com duas mortes e uma refinaria avariada. A eleição seguiu o roteiro – e o custo da guerra mudou de endereço.
A maior onda de drones da guerra caiu sobre Moscou, no último dia de votação, e a coincidência de calendário é o dado mais informativo do episódio: o país que organizou uma eleição para demonstrar normalidade recebeu, no mesmo fim de semana, a prova de que a guerra já mora dentro de casa.
A France24 registrou mais de mil drones lançados pela Ucrânia naquela madrugada, descrevendo o episódio como o maior ataque já dirigido à capital russa. O TASS, citando a Defesa russa, informou 1.110 drones abatidos e o prefeito de Moscou falou na maior ofensiva já repelida. Os dois números não se contradizem porque não medem a mesma coisa: um conta lançamentos, o outro conta intercepções, e cada lado escolhe a métrica que o favorece. É preciso ler os dois para saber que houve algo grande.
O que não depende de métrica: duas pessoas mortas na região de Moscou, confirmadas pela BBC, pela AP e pelo TASS citando o governador, e uma refinaria de petróleo atingida na capital, relatada pela Reuters, pelo G1, pelo Hindustan Times e pelo Mehr News. O prefeito confirmou danos à refinaria. Investigadores russos abriram processo por terrorismo, segundo a Sputnik, e o governo russo alega interferência eleitoral, conforme o Hindustan Times.
Uma refinaria avariada no dia da votação diz mais sobre a guerra do que qualquer resultado publicado no dia seguinte.
A eleição que correu conforme o roteiro
Enquanto isso, a apuração seguiu exatamente o desenho previsto. A autoridade eleitoral registrou comparecimento de 45,1%, segundo o TASS; a Rússia Unida liderava com 57,85% quando 87,91% das urnas haviam sido apuradas, conforme a Sputnik, e o TASS reportava 71,17% das cédulas processadas com o mesmo partido à frente. O Times of India falou em 57,5%, a AP resumiu como um pleito com domínio do Kremlin assegurado, e o Hindustan Times escreveu que Putin mantém o controle sobre a Rússia numa eleição parlamentar de guerra.
Nenhuma dessas manchetes é novidade. O que importa é o que elas mostram juntas: a votação fez o que existia para fazer, produzir continuidade, e o sistema absorveu no mesmo instante um ataque aéreo de escala inédita sem alterar nada do procedimento. Um regime capaz de votar sob centenas de drones é um regime que já normalizou a guerra como condição de operação.
A frente que se abriu dentro da Rússia
Durante dois anos, o custo russo da guerra foi medido em soldados e em sanções. As últimas horas sugerem um deslocamento: refinarias, portos, logística e espaço aéreo. É o tipo de alvo que não decide batalha e altera economia, e é justamente o espelho da campanha russa do outro lado.
Do lado ucraniano, a mesma lógica em sentido inverso. A França24 e o TASS registram ataques russos a navios de carga, ao porto de Izmail e a centros logísticos; a Reuters relatou um ataque com drones russos que matou três crianças e uma mulher na região de Kiev. Cada lado concluiu que a forma mais eficiente de atingir o outro é por onde entra e sai mercadoria.
E há o fator de sustentação. O TASS informou que as importações chinesas de GNL russo cresceram 28,2% e as de petróleo 18,1% entre janeiro e agosto. Um cliente desse porte, com desconto embutido e pagamento em moeda própria, faz mais pela resistência russa do que qualquer medida doméstica. Enquanto isso, a projeção que o próprio TASS destacou é de que a Ucrânia pode perder até 6,8% do PIB em 2027 se as hostilidades continuarem.
O que a votação não resolveu
A eleição parlamentar russa era apresentada, inclusive fora da Rússia, como um teste de apoio à guerra. Foi um teste com resposta conhecida de antemão, e o comparecimento de 45,1% é, por si, um dado sobre entusiasmo. Votação obrigatória no discurso e comparecimento baixo retratam uma sociedade que aprendeu a participar do procedimento sem aderir ao projeto.
A conclusão do fim de semana é mais estreita e mais dura: a guerra russa passou a ter frente doméstica, e essa frente se mede em refinarias, aeroportos e duas pessoas mortas num subúrbio enquanto o país votava. Nenhuma eleição, com qualquer resultado, devolve ao Estado russo o que ele gastou em imagem ao acordar com a capital sob ataque.