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Monroe voltou, e Lula respondeu na ONU

Washington pôs no papel a doutrina de 1823, invadiu a Venezuela, sanciona Cuba, amplia bases na Groenlândia e mantém uma guerra parada contra o Irã. Lula respondeu da tribuna da ONU nomeando os mecanismos da ofensiva, e a eleição de 4 de outubro de 2026 decide quem administra a resposta, com a família Bolsonaro do outro lado.

No dia 22 de setembro de 2026, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva abriu o debate geral da 81ª Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) e falou por cerca de 22 minutos. O Brasil ocupa a primeira tribuna desde 1955, e quem fala primeiro costuma servir de termômetro para o resto da semana. Nesta terça-feira, o termômetro marcou a distância entre dois projetos de hemisfério.

Lula começou pela casa em que falava. “Esta é a décima ocasião em que abro o Debate Geral desta Assembleia. Desde que ocupei pela primeira vez esta tribuna, em 2003, este é o momento mais crítico das Nações Unidas”, disse, e nomeou em seguida o que o movia: “O sentimento que me move hoje é o da indignação.” A ONU estava falhando, segundo ele, “em uma das suas missões mais elevadas: a de livrar a humanidade do flagelo da guerra”, e sua credibilidade “nunca esteve tão baixa”. A íntegra do discurso está publicada.

Duas cenas daquele dia ficaram registradas. A primeira: a delegação dos Estados Unidos não aplaudiu em nenhum momento. A segunda aconteceu no intervalo entre os discursos: o secretário de Estado Marco Rubio caminhou até Lula no plenário, e pelas imagens o contato ficou em gestos com o chanceler Mauro Vieira, com o presidente brasileiro seguindo adiante cercado por outros representantes. A aproximação foi registrada em vídeo. Não houve conversa, e nenhum dos dois lados se pronunciou sobre o episódio.

Horas depois, Donald Trump falou na mesma tribuna. “Os Estados Unidos não permitirão mais que ameaças à América ganhem espaço em qualquer lugar do Hemisfério Ocidental e, se necessário, usaremos nosso poderio militar sem igual para garantir os interesses nacionais vitais dos Estados Unidos”, disse, segundo a compilação oficial da Casa Branca. No mesmo discurso, chamou os cartéis de “o ISIS do Hemisfério Ocidental” e afirmou: “O comunismo nunca chegará aos Estados Unidos, mas a liberdade chegará a Cuba, e a segurança chegará ao México.”

O discurso de abertura não foi o único gesto do dia, mas é nele que a ofensiva encontra o seu nome. Do outro lado, a eleição de 4 de outubro de 2026 é o lugar onde a ofensiva encontra o seu alvo.

A doutrina está escrita

O que Washington fez em 2026 não cabe na improvisação de um discurso. Está em documento, assinado e publicado. A Estratégia de Segurança Nacional dos Estados Unidos enviada ao Congresso em novembro de 2025 tem uma seção intitulada “Hemisfério Ocidental: o Corolário Trump à Doutrina Monroe” e afirma, literalmente, que “os Estados Unidos vão reafirmar e aplicar a Doutrina Monroe para restaurar a preeminência norte-americana no Hemisfério Ocidental”, conforme o texto oficial. Em 2 de dezembro de 2025, numa mensagem pelos 250 anos de nascimento do país, Trump escreveu que sua administração “reafirma com orgulho essa promessa sob um novo ‘Corolário Trump’ à Doutrina Monroe”, na mensagem presidencial.

Um mês depois, depois da operação militar que capturou Nicolás Maduro em Caracas, o presidente dos Estados Unidos resumiu a mudança de nome com a franqueza que costuma usar: “A Doutrina Monroe é coisa grande, mas nós a superamos, e por muito. Agora chamam de doutrina Donroe”, disse em 3 de janeiro de 2026, na entrevista em que rebatizou a doutrina.

O instrumento dessa política foi batizado em março de 2026. O Escudo das Américas nasceu em 5 de março de 2026 e teve sua cúpula inaugural dois dias depois, no Trump National Doral, em Miami, com sede no Comando Sul das Forças Armadas dos Estados Unidos, na Flórida. O Departamento de Estado mantém a página da coalizão. Em 22 de setembro de 2026, o mesmo dia do discurso de Lula, o Escudo divulgou em Nova York a Declaração Conjunta sobre a Defesa da Soberania Hemisférica, assinada por 15 governos, que lista nominalmente 24 organizações criminosas a serem tratadas como “organizações narcoterroristas transnacionais” e anuncia pedido de reunião de consulta à Organização dos Estados Americanos (OEA) sob o Tratado Interamericano de Assistência Recíproca, o Tratado do Rio.

A lista é o detalhe que interessa ao Brasil. No item 16 está o Primeiro Comando da Capital e, no item 17, o Comando Vermelho, como mostra o levantamento sobre os signatários. O Brasil não assina a declaração nem integra a coalizão, e ficou de fora junto com o México, na contagem de adesões à coalizão. As duas facções brasileiras já haviam sido designadas pelo Departamento de Estado como terroristas globais especialmente designados em 28 de maio de 2026 e como organizações terroristas estrangeiras em 5 de junho de 2026, numa decisão assinada por Rubio e registrada no comunicado do próprio departamento.

O que a ofensiva já fez

A Venezuela foi o laboratório. Em 3 de janeiro de 2026, forças dos Estados Unidos capturaram Nicolás Maduro e Cília Flores em Caracas, numa operação que partiu de 20 bases e usou 150 aeronaves. Rubio apresentou o episódio ao Senado como ação policial: “Não há guerra contra a Venezuela e não ocupamos um país. Não há tropas dos Estados Unidos em terra. Foi uma operação de apoio à aplicação da lei”, disse em depoimento em 28 de janeiro de 2026, como registra a transcrição oficial do comitê de Relações Exteriores do Senado.

Oito meses depois, o resultado aparece na forma de contrato. O acordo petrolífero anunciado no fim de agosto de 2026 dá aos Estados Unidos controle majoritário sobre mais de 65 bilhões de barris de reservas comprovadas, em 17 campos concedidos por 100 anos. Em 22 de setembro de 2026, Trump recebeu em Nova York a presidente interina Delcy Rodríguez, no primeiro encontro presencial desde a captura de Maduro, e disse que “ao vencedor pertencem os espólios”. No mesmo dia, manifestantes protestaram diante da sede da ONU com cartazes que diziam “Sem voto, sem petróleo”, e a equipe de María Corina Machado informou que ela foi impedida de voltar ao país.

No mar, a campanha tem números próprios. O projeto de monitoramento Airwars contabilizou 69 embarcações destruídas e ao menos 227 mortos em 12 meses de ataques a barcos no Caribe e no Pacífico leste, com a campanha retomada em 24 de agosto de 2026, conforme o relatório da organização.

Cuba entrou no mesmo roteiro por outra porta, a da energia. Em 18 de setembro de 2026, o sistema elétrico cubano sofreu a oitava desconexão total do ano, deixando mais de 9 milhões de pessoas sem luz. No dia anterior, o Departamento de Estado havia sancionado oito entidades e três pessoas ligadas ao complexo militar-industrial e ao níquel cubanos, e Rubio descreveu o país como “um Estado falido e corrupto e uma ameaça persistente à segurança nacional dos Estados Unidos, situado a menos de 100 milhas das costas dos Estados Unidos”, no comunicado oficial. O presidente cubano Miguel Díaz-Canel respondeu em 16 de abril de 2026 que Cuba é “um Estado sitiado”, e não falido, sujeito a “guerra econômica, bloqueio intensificado e bloqueio energético”, no discurso oficial que marcou os 65 anos da proclamação do caráter socialista da Revolução Cubana. Em março de 2026, Trump havia dito em Miami que Cuba era “a próxima”.

A Groenlândia, que não tem facção armada nem apagão, entrou na lista pela geografia. Em 22 de setembro de 2026, Trump, a primeira-ministra dinamarquesa Mette Frederiksen e o primeiro-ministro groenlandês Jens-Frederik Nielsen assinaram um acordo de segurança que atualiza o pacto de defesa de 1951 e prevê duas bases novas, em Narsarsuaq e Mestersvig, a modernização da base de Pituffik e a proibição de instalações militares de países que não integram a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) na ilha. Depois da assinatura, Trump afirmou que o acordo lhe dá “controle permanente sobre a segurança e todas as outras necessidades” da ilha, “pela perpetuidade”. Dinamarca e Groenlândia rejeitaram essa leitura e sustentam que o texto reconhece a soberania do Reino da Dinamarca.

O restante da região aparece na mesma semana com sinais trocados. Na Colômbia, o Tesouro dos Estados Unidos sancionou o presidente Gustavo Petro, sua mulher e seu filho em 24 de outubro de 2025 sob alegações ligadas ao tráfico de drogas, conforme o comunicado do Tesouro. Em 7 de agosto de 2026, Abelardo de la Espriella tomou posse prometendo derrotar “implacavelmente o narcoterrorismo” e disse que “a opção do diálogo está completamente esgotada”; cinco dias depois a Colômbia ingressou na coalizão anticartéis como 19º membro. No Equador, onde os eleitores rejeitaram bases estrangeiras em referendo em novembro de 2025, o governo de Daniel Noboa assinou um acordo de status das forças e autorizou operações conjuntas desde março; a Human Rights Watch documentou em julho de 2026 tortura e detenções arbitrárias de quatro trabalhadores rurais numa operação conjunta em San Martín, além de ataques com drones a barcos pesqueiros perto das Galápagos, no relatório A Dangerous Partnership.

O Chile entrou na coalizão em 22 de setembro de 2026, deixando a condição de observador, como anunciou o presidente José Antonio Kast, que oito dias antes havia dito que o país seguia apenas como observador, e cujo ministro da Defesa, Fernando Barros, declarou que “do ponto de vista do Chile, nós não somos o pátio traseiro de nenhum país”. Na Argentina, Trump celebrou o que chamou de “uma grande vitória” no país, disse ir “nove de nove” entre os candidatos que apoiou e ouviu de Javier Milei uma proposta de “papel proativo” na segurança hemisférica, com menções ao Atlântico Sul e à Antártida; semanas antes, o governo argentino havia sancionado petroleiras que operam nas Malvinas.

Contra o Brasil, a ofensiva usa tarifa e lista. A investigação da Seção 301 concluída em 15 de julho de 2026 impôs tarifa adicional de 25% sobre a maior parte das importações brasileiras, com isenções para carne bovina, café instantâneo, suco de laranja e aeronaves civis, conforme a decisão publicada no Registro Federal. Em 15 de setembro de 2026, a determinação presidencial que define a lista de países produtores ou de trânsito de drogas para o ano fiscal de 2027 afirmou que o governo brasileiro “falhou em confrontar” o Primeiro Comando da Capital e o Comando Vermelho, embora o Brasil não apareça na lista de 23 países, conforme a determinação presidencial. Em julho de 2026, o Itamaraty havia avaliado ao Congresso que a classificação unilateral das duas facções “poderia ser invocada como justificativa para ações extraterritoriais sobre instituições brasileiras”, com “risco de uso da força militar dos Estados Unidos contra o território nacional”.

O método tem 203 anos

Nada disso é invenção de 2026. A Doutrina Monroe foi enunciada por James Monroe em 2 de dezembro de 1823, na mensagem anual ao Congresso, com a frase que fechou o continente à colonização europeia: os continentes americanos “não devem ser considerados, doravante, como sujeitos a futura colonização por qualquer potência europeia”, no texto original. Em 6 de dezembro de 1904, Theodore Roosevelt acrescentou o que faltava: o direito de intervir. “A adesão crônica ao erro, ou a impotência que resulta no afrouxamento geral dos laços da sociedade civilizada, pode na América, como em qualquer outro lugar, exigir por fim a intervenção de alguma nação civilizada”, disse ele, e o Departamento de Estado registra que o corolário serviu de justificativa para intervenções em Cuba, Nicarágua, Haiti e República Dominicana.

O que veio depois está em arquivo. Em 1954, a Agência Central de Inteligência (CIA) organizou a partir de Honduras e El Salvador o exército que derrubou Jacobo Árbenz na Guatemala, na operação codinomeada PBSUCCESS (um criptônimo da agência, sem expansão pública), documentada nos papéis desclassificados reunidos pelo Arquivo de Segurança Nacional da Universidade George Washington. Em 1964, o governo de Lyndon Johnson autorizou a operação Brother Sam, com armas, combustível e a possibilidade de tropas em apoio à conspiração contra João Goulart, e fitas gravadas por John Kennedy registram a decisão de criar o “clima de golpe”, no mesmo acervo. No Chile, o relatório do comitê do Senado que investigou as operações de inteligência concluiu em 1975 que o envolvimento encoberto dos Estados Unidos no país foi “extenso e contínuo”, com 3 milhões de dólares gastos para influenciar a eleição de 1964 e 8 milhões entre 1970 e 1973, no relatório do Church Committee.

A Operação Condor, criada em Santiago entre 25 e 28 de novembro de 1975 por iniciativa do serviço de inteligência chileno, com delegados da Argentina, Bolívia, Paraguai e Uruguai, transformou o compartilhamento de informações num sistema transnacional de desaparecimento: o levantamento do jornalista John Dinges documentou 654 vítimas de sequestro, tortura e desaparecimento no período 1976-1980, conforme o Arquivo de Segurança Nacional. Em 2002, a Venezuela viveu o roteiro invertido: militares dissidentes depuseram Hugo Chávez por 47 horas em abril, e um resumo diário de inteligência do governo dos Estados Unidos, de 6 de abril daquele ano, já registrava o planejamento dos dissidentes; o documento está desclassificado no Arquivo Nacional dos Estados Unidos. Em 2019, foi a vez de Evo Morales, que renunciou em 10 de novembro depois de as Forças Armadas recomendarem sua saída, num processo em que a auditoria da OEA apontou “manipulação intencional” na contagem.

O treinamento dos executores também está documentado. A Escola das Américas, criada em 1946, formou mais de 57 mil militares e civis latino-americanos em cinco décadas, e em setembro de 1996 o Departamento de Defesa divulgou trechos de manuais em espanhol usados entre 1982 e 1991 que discutiam execução e tortura de insurgentes, segundo o relatório do serviço de pesquisa do Congresso. A escola foi rebatizada em 2000 como Instituto do Hemisfério Ocidental para Cooperação em Segurança.

Havia, em 2013, uma leitura oficial diferente. “A era da Doutrina Monroe acabou”, declarou o então secretário de Estado John Kerry numa reunião da OEA, em discurso preservado no arquivo do Departamento de Estado. 13 anos depois, a preeminência voltou ao vocabulário oficial com o nome de corolário.

A guerra que não entregou

O pano de fundo que dá urgência à ofensiva está fora do continente. Em 28 de fevereiro de 2026, os Estados Unidos e Israel lançaram a operação que batizaram de Fúria Épica contra o Irã, matando o líder supremo Ali Khamenei e atingindo comando, defesa aérea e instalações nucleares. Seguiu-se um cessar-fogo de duas semanas em abril de 2026, um bloqueio naval aos portos iranianos a partir de 13 de abril e um memorando de entendimento assinado em 17 de junho de 2026 que previa o fim das operações e a reabertura do Estreito de Ormuz em 60 dias de negociação. O período está resumido no relatório do Serviço de Pesquisas do Congresso e numa cronologia da Arms Control Association. O memorando expirou em 17 de agosto sem acordo final.

O resultado está medido. Em 21 de setembro de 2026, apenas dois navios comerciais atravessaram o Estreito de Ormuz, contra uma média anterior à guerra de cerca de 125 trânsitos diários, segundo dados da consultoria Kpler. A Organização Marítima Internacional contabilizou 68 incidentes no Golfo e águas vizinhas em seis meses de guerra, com pelo menos 20 marítimos mortos. A Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) informou em fevereiro de 2026 que não tem acesso a nenhuma das quatro instalações de enriquecimento declaradas do Irã e não consegue dizer o tamanho, a composição nem o paradeiro do estoque de urânio enriquecido, no relatório ao Conselho de Governadores; em setembro, a declaração conjunta de Estados Unidos, França, Alemanha e Reino Unido registrou que o Irã “não forneceu acesso a nenhuma instalação nuclear e impediu todas as atividades de verificação em campo”, no texto do governo britânico. Em 9 de setembro, o conselho da AIEA aprovou por 23 votos a 3 o envio do caso iraniano ao Conselho de Segurança da ONU pela primeira vez em 20 anos.

Nenhuma das fontes consultadas sustenta a tese de uma vitória militar iraniana. O que o registro mostra é mais estreito e mais duro: a campanha não entregou nenhum dos objetivos declarados. A Reuters descreveu, numa análise de 27 de agosto, que “o Irã não se rendeu, o transporte pelo Estreito de Ormuz continua gravemente interrompido, e não há caminho claro para encerrar o conflito que Trump previu que terminaria em quatro semanas”. O centro de pesquisa RAND (Research ANd Development) avaliou o resultado como um dilema: houve progresso em três dos quatro objetivos declarados, e não houve a queda do governo que Washington esperava, no comentário publicado pela instituição. A montanha de Pickaxe, o complexo a 100 metros de profundidade sob granito perto de Natanz que escapou aos ataques, segue no centro da ameaça seguinte.

O que Lula disse, e a que responde

O discurso de Lula pode ser lido como a resposta articulada a essa sequência, e é aí que a peça ganha o seu eixo. Ele foi montado como um diagnóstico, e não como uma lista de queixas: primeiro a falência do sistema que deveria conter as potências, depois os mecanismos com que a ofensiva opera, e no fim o país onde ela vai ser decidida. O texto integral foi distribuído pela Secretaria de Comunicação Social da Presidência e está publicado na íntegra.

O diagnóstico começa na casa em que ele falava. “Somos todos reféns do imobilismo de um Conselho de Segurança que não cumpre o seu papel”, disse, e ligou o imobilismo a uma herança de 1946: “o Brasil alertava para o alto preço que a comunidade internacional pagaria pelo direito de veto. Esse vício de origem da Carta da ONU conferiu às grandes potências o privilégio da insensatez. A esse pecado original soma-se agora uma profunda crise de liderança.” O quadro que ele descreve tem número: “o ano de 2025 registrou o maior número de conflitos armados desde a Segunda Guerra Mundial”. E a saída aparece como escolha explícita, em três pares: “multilateralismo ou unilateralismo; democracia ou extremismo; soberania ou subordinação”. A frase que resume o método é a que fecha o trecho, e ela inverte Clausewitz: “a guerra […] é a falência total da política”.

A América Latina vem em seguida, e é onde a doutrina de Monroe tem endereço. “Na América Latina e Caribe, a proximidade geográfica com a maior potência militar do mundo é inescapável. Sobretudo num contexto de recrudescimento de tentações hegemônicas. O Brasil não cabe no quintal de ninguém.” O discurso nomeia o instrumento: “a divisão do mundo em zonas de influência e investidas neocoloniais por recursos estratégicos constituem gestos anacrônicos”. E nomeia os dois países que a ofensiva já atingiu: “o povo venezuelano merece definir o próprio destino” e, sobre Cuba, “o mundo assiste estarrecido à punição coletiva imposta a 10 milhões de pessoas por um embargo econômico e um cerco energético ilegais”. O cerco energético é o mesmo que apagou a ilha oito vezes em 2026.

Sobre o uso da força, a passagem responde ao Escudo das Américas sem negar o problema que ele invoca. “As pessoas estão cansadas da violência. Mas não vamos terceirizar a responsabilidade de defender nossas fronteiras e de garantir à população o direito de viver sem medo. Não precisamos de porta-aviões vigiando nossas águas. Precisamos de cooperação para estancar o fluxo de armas e de dinheiro que abastecem o crime. Esse é o espírito da proposta que entreguei pessoalmente ao Presidente dos Estados Unidos.” A frase final é a chave da leitura: o governo brasileiro não disputa a existência do crime organizado, e sim a jurisdição sobre ele.

O comércio e a tecnologia aparecem no mesmo movimento. “Os pilares do multilateralismo estão sendo corroídos. A Organização Mundial do Comércio respira por aparelhos. Quando os governos capitulam frente aos que usam tarifas como armas de coerção e chantagem, as consequências são nefastas.” Sobre o que a peça trata como colonialismo digital, o discurso é específico: “um punhado de tecno-oligarcas quer ressuscitar uma versão de neoliberalismo digital, sem regras nem transparência”, e o país “não vai ceder às pressões de multinacionais que querem privatizar o nosso PIX, uma infraestrutura de pagamentos pública e gratuita”. A resposta à corrida por minerais críticos e terras raras vem na mesma lógica de contrapartida: “o acesso a nossos minerais terá como contrapartida obrigatória a geração de valor em nosso território, a transferência de tecnologia e o suprimento de setores estratégicos nacionais”.

Gaza entra como acusação jurídica, não como lamento. “Gerações de palestinos carregarão a dor e o trauma deixados pelo genocídio praticado pelo governo Netanyahu contra mulheres e crianças em Gaza”, disse, e acrescentou que “perseguir o Tribunal Penal Internacional e seus integrantes é um estímulo para que esses crimes fiquem impunes”, citando ainda a relatora especial da ONU Francesca Albanese, que “não pode ser silenciada por dizer a verdade”. A guerra contra o Irã aparece na mesma passagem, pelo efeito econômico: “o Estreito de Ormuz transformou-se em trincheira da guerra, quando deveria permanecer uma passagem vital para o comércio internacional”.

O fecho do discurso é o que amarra a peça ao calendário brasileiro, e por isso vai inteiro adiante. “No dia quatro de outubro, milhões de brasileiras e brasileiros vão às urnas para definir o seu destino. Não vão apenas eleger o presidente da República, governadores estaduais e representantes do Poder Legislativo. Vão decidir entre democracia e negacionismo. Se o Brasil vai avançar rumo a um futuro de mais oportunidades ou regressar a um passado de exclusão.” Depois de dizer que “sabemos que alguns abusam dessa liberdade para se associar a interesses estrangeiros contrários ao país”, ele fecha: “sob o olhar atento de uma cidadania plural e de uma imprensa livre, não permitiremos que os inimigos da democracia, internos e externos, atentem contra a vontade popular. A democracia brasileira pertence aos brasileiros.”

O texto denuncia, por diferentes formulações, mecanismos de tutela, avanço sobre recursos estratégicos, ingerência eleitoral, pressão tarifária e assédio regulatório contra a infraestrutura digital do país. A passagem “é possível colocar o pobre no orçamento e fazer os ricos pagarem a sua parte” apresenta essa dinâmica como resultado de uma escolha política, e não como uma consequência inevitável das circunstâncias econômicas. Já a afirmação “não é recolonizar o Sul Global” explicita que o próprio discurso reconhece a existência de uma disputa em torno da autonomia dos países do Sul Global, ainda que negue que seu objetivo seja uma recolonização. As demais formulações reforçam essa leitura ao apontarem para formas concretas de intervenção – sobre recursos, processos eleitorais, comércio e infraestrutura – que ultrapassam o campo da simples cooperação entre Estados.

Não precisamos de porta-aviões vigiando nossas águas.

O elo interno

A ofensiva externa tem sócios internos, e esse é o elo que o discurso de Lula ataca quando fala de inimigos “internos e externos”. A família Bolsonaro não é figurante dessa história: é o lado brasileiro de uma articulação que já foi julgada em parte, e que se apresenta agora como alternativa de governo.

O patriarca está preso. O Supremo Tribunal Federal (STF) condenou Jair Bolsonaro, na Ação Penal (AP) 2668, a 27 anos e três meses de prisão em regime fechado por organização criminosa armada, abolição violenta do Estado de Direito, golpe de Estado, dano qualificado e deterioração de patrimônio tombado, com a pena em execução desde 25 de novembro de 2025. Em 24 de março de 2026, o ministro Alexandre de Moraes concedeu prisão domiciliar humanitária por 90 dias, para tratamento de broncopneumonia aspirativa, e em 3 de julho a prorrogou por tempo indeterminado. Em 17 de julho, depois que ele escreveu uma carta de apoio à candidatura do filho divulgada nas redes, Moraes proibiu visitas com fins políticos ou eleitorais até o fim das eleições de outubro.

O filho mais velho já foi condenado por causa do lado externo dessa articulação. A Mesa Diretora da Câmara cassou o mandato de Eduardo Bolsonaro em 18 de dezembro de 2025, e a Primeira Turma do STF o condenou em 16 de junho de 2026 a quatro anos e dois meses de prisão, em regime semiaberto, por coação no curso do processo, por ter articulado nos Estados Unidos pressão e sanções contra ministros da Corte, o que também o tornou inelegível. Em 18 de setembro, a Primeira Turma rejeitou por unanimidade o recurso da defesa, e Moraes deixou a regra em uma frase: “não é função de deputado federal brasileiro fazer lobby no exterior contra o próprio país”.

O lobby, no entanto, não parou com a condenação. Em 16 e 17 de setembro de 2026, Eduardo Bolsonaro e o empresário Paulo Figueiredo reuniram-se em Washington com integrantes da Casa Branca e do Departamento de Estado para pedir a retomada das sanções da Lei Global Magnitsky contra Moraes e a extensão delas aos ministros Flávio Dino e Gilmar Mendes. No dia 15, ele havia escrito que “a nação celebrará” eventuais sanções dos Estados Unidos a ministros do STF. E em 17 de setembro foi além do pedido de sanção: disse que, se os ministros “entenderem que a eleição do Flávio é um ato de golpismo”, os Estados Unidos poderiam não reconhecer o resultado brasileiro.

Em 22 de junho de 2026, no evento da Confederação Nacional da Indústria em Brasília, Flávio Bolsonaro disse que “não dá para a todo momento provocar a maior democracia do mundo” e que “não é possível o Brasil viver em conflito com os Estados Unidos”, a mesma entrevista em que afirmou que “o Supremo hoje parece mais uma delegacia de polícia do que um tribunal constitucional”. Em 7 de julho, foi a Washington depor em audiência pública do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) sobre a investigação que produziu o tarifaço, posando como interlocutor do governo americano. Um dia antes, havia acusado Lula de usar a soberania como “falsa narrativa” para favorecer a tarifa maior. Em 15 de setembro, sua propaganda eleitoral, gravada em formato de pronunciamento presidencial, tratou da crise no STF e disse que o governo “dividiu poder” com parte da Corte, criando “desequilíbrio institucional”; o senador é formalmente investigado pela Polícia Federal (PF) por sua atuação no caso.

O alvo declarado dessa articulação é o Supremo Tribunal Federal. O Congresso acumulava, em 21 de setembro de 2026, ao menos 84 propostas de emenda à Constituição (PECs) que mudam a Corte, 64 na Câmara dos Deputados e 20 no Senado, tratando de forma de indicação, idade mínima, tempo de mandato, composição e controle externo. Entre as que andaram, a PEC 8/2021 limita decisões monocráticas e a PEC 28/2024 permite ao Congresso suspender decisão do STF por dois terços de cada Casa. A Lei 15.402/2026, que reduz penas dos condenados pelos atos de 8 de janeiro de 2023, foi promulgada em 8 de maio de 2026 depois de o veto presidencial ser derrubado, e teve a aplicação suspensa por Moraes em 9 de maio, até o julgamento do mérito. Em 11 de maio de 2026, o líder do Partido Liberal (PL) na Câmara protocolou a PEC da Anistia, que perdoa “os que participaram, direta ou indiretamente” dos atos golpistas. O balanço divulgado pelo gabinete de Moraes em 29 de abril de 2026 contabilizava 1.402 condenados pelos atos de 8 de janeiro de 2023, entre penas de prisão, penas alternativas e acordos.

Em 15 de setembro, uma sessão do plenário do STF sobre mensagens atribuídas a Moraes durou mais de sete horas e terminou sem decisão, com placar parcial de 4 a 3. O julgamento que pode definir o alcance da anistia e da dosimetria é o mesmo que a campanha de Flávio Bolsonaro transformou em tema de propaganda.

O que a eleição decide

O calendário empurra tudo isso para a urna. O primeiro turno é em 4 de outubro de 2026 e o segundo, onde houver, em 25 de outubro, pela Resolução 23.751 do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). A série do Datafolha mostra a distância entre Lula e Flávio Bolsonaro caindo de 10 pontos em junho para 8 em julho, 6 em agosto, 5 no início de setembro e 3 em 17 de setembro de 2026, quando a pesquisa deu 39% a 36%, empate técnico na margem de dois pontos, segundo turno em 46% a 44% e rejeição empatada em 47% para os dois. A Quaest registrou em 21 de setembro o primeiro empate técnico no primeiro turno, 37% a 33%, e virada de Flávio no segundo, 42% a 41%. O BTG/Nexus, no mesmo dia, marcou 40% a 37% e 46% a 45%. O agregador do UOL tinha 38,8% a 34,4% e 44,3% a 44,1% no segundo turno.

O Senado é o outro número, e é onde o pós-eleitoral já está desenhado. Renovam-se 54 das 81 cadeiras, e a renovação pode chegar a 63 porque nove senadores em meio de mandato disputam cargos do Executivo, abrindo espaço para suplentes. Ao todo, 314 candidatos disputam as vagas. No Distrito Federal, Michelle Bolsonaro lidera a corrida às duas vagas com 22,2%. Em Santa Catarina, Carlos Bolsonaro aparece com 16% e empate técnico na liderança.

É aqui que as duas pontas se encontram, e é aqui que a peça cobra o seu título. A ofensiva que Lula descreveu na tribuna não termina no Caribe nem em Ormuz: ela tem um endereço eleitoral declarado, dito em voz alta em Washington por um dos filhos do ex-presidente, e um instrumento institucional em tramitação no Congresso, que são as 84 propostas que mexem no Supremo, a lei que reduziu penas e a anistia que espera votação. Se o Senado renovar dois terços das cadeiras e a Corte for reconfigurada, a resposta brasileira à ofensiva deixa de depender do discurso de quem ocupa a tribuna e passa a depender de quem controla as comissões. A pergunta que a semana de Nova York deixa aberta é esta: quem administra, depois de 4 de outubro de 2026, a resposta que Lula formulou em nome do país. O discurso fixou a posição, e a urna decide se ela terá governo. A fragilidade é parte do dado: o mesmo texto que desenhou a linha de frente foi lido por um candidato em empate estatístico, num país onde a maior parte do Congresso vota contra o seu governo.