F-35: o contêiner que saiu da Austrália e parou em Hong Kong
Peças de um caça F-35 enviadas da Austrália aos Estados Unidos para reparo acabaram em Hong Kong, e o dossel com material absorvente de radar viajava dentro. A auditoria de 2023 já apontava mais de 1 milhão de peças de reposição do programa desaparecidas em cinco anos.
Um carregamento de peças de caça F-35 saiu da Austrália com destino aos Estados Unidos, para reparo, e reapareceu em Hong Kong. O ministro da Defesa australiano, Richard Marles, confirmou o desvio nesta terça-feira, 22 de setembro de 2026, em Adelaide, e disse que Canberra ajuda a investigação conduzida pelos Estados Unidos e pela Lockheed Martin, a contratada principal do programa, conforme a emissora pública australiana ABC News.
O que estava na carga é a parte que interessa. A Politico relatou que entre os componentes havia um dossel de cabine, a redoma de acrílico que cobre o cockpit e recebe uma camada fina de material absorvente de radar, responsável por esconder o avião dos radares inimigos. Marles classificou o material como não sensível: “Não estamos falando de equipamento sensível nem de peças sensíveis”, disse, segundo a agência France-Presse (AFP.
A cadeia de custódia que não era australiana
A peça que falta na explicação oficial já estava registrada em audiência pública. O galpão de Williamtown, ao norte de Newcastle, funciona como centro regional de peças de reposição do F-35 para a Ásia-Pacífico, e a Austrália informou ao parlamento em 2025 que não controlava nem dirigia a exportação do que saía dali: a Lockheed Martin movimentava o estoque, destinado a outras partes do mundo, em voos comerciais com escalas na Ásia, conforme o The Straits Times. Nenhuma instalação australiana é capaz de reparar dosséis do F-35, segundo a Politico, o que explica por que a peça viajava para os Estados Unidos.
O transporte ficou com um intermediário contratado pela fabricante. O Escritório Conjunto do Programa F-35 do Pentágono disse estar “ciente de um problema de remessa de componentes inutilizáveis do F-35 Lightning II” e afirmou trabalhar para recuperá-los, investigar o episódio e criar salvaguardas, conforme a emissora norte-americana CNN. O Departamento de Estado não comentou, e a Embaixada da China disse não conhecer o caso.
20 países operam o caça e dividem um estoque comum de sobressalentes. O elo que falhou fica num armazém operado pela fabricante, fora do controle de quem voa o avião.
O sumiço chegou ao Congresso antes de chegar à imprensa australiana. O Comitê de Serviços Armados da Câmara dos Representantes, que supervisiona a política de defesa dos Estados Unidos, informou que acompanha o caso e já recebeu várias sessões de instrução, segundo a Bloomberg. Gertler, ex-assessor do mesmo comitê, disse à Politico que uma peça física permite a um adversário verificar ou refinar informação obtida por outros meios.
O que não se sabe, e por que importa
Não se sabe por que a carga foi desviada nem quem tem a posse dos componentes hoje. A remessa saiu da Austrália no meio de 2026, e a CNN registrou que a rota terminou em Hong Kong, região administrativa especial da China. Marles afirmou que a Austrália examina “muito de tudo o que aconteceu na ponta australiana”, sem detalhar o que encontrou.
A Lockheed Martin disse que não pode discutir o status de remessas específicas nem seus procedimentos de transporte por razões de segurança, e que cada embarque é tratado com a máxima diligência, conforme o The Straits Times.
O problema de auditoria não nasceu agora. Um relatório do Government Accountability Office (GAO), a agência de fiscalização do Congresso dos Estados Unidos, apontou em 2023 que mais de 1 milhão de peças de reposição do F-35 haviam desaparecido nos cinco anos anteriores, e concluiu que o Pentágono não conseguia revisar perdas avaliadas em dezenas de milhões de dólares porque a Lockheed Martin controla a informação, segundo a Politico.
A Austrália opera 72 F-35 e é um dos países que dividem o estoque global de peças do programa, segundo a AFP. O caça voa em 17 forças armadas de 20 países, entre eles Japão, Coreia do Sul e Israel, conforme a Lockheed Martin.
A pergunta que o caso deixa aberta é quem responde pelo estoque comum. O depósito que recebe as peças fica em solo australiano, mas a decisão sobre o que sai dele é da fabricante; o transporte passa por um intermediário contratado por ela; e o próprio Pentágono depende dos registros da contratada para saber o que se perdeu. O Government Accountability Office (GAO) mediu esse arranjo em 2023 e encontrou mais de 1 milhão de peças desaparecidas em cinco anos, sem conseguir revisar as perdas. O contêiner que parou em Hong Kong mostra a mesma estrutura de perto: um lote que o programa classifica como inutilizável, movido sem supervisão nacional, com parte da carga ainda por localizar.