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Geopolítica antes das manchetes
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O gargalo das terras raras está no refino

A dependência ocidental está nas poucas instalações que separam os elementos, e a China detém 91% desse refino.

O gargalo da dependência ocidental não está no subsolo. Está em um punhado de prédios onde a rocha moída é transformada em óxido separado – e é essa etapa, não a mina, que a China domina.

Segundo a Agência Internacional de Energia, a China concentrava 91% da produção mundial refinada de terras raras magnéticas – neodímio, praseodímio, disprósio e térbio – em 2024, contra 60% da produção mineira desses mesmos elementos e 94% dos ímãs permanentes sinterizados. No refino do conjunto das terras raras, a participação chinesa caiu de mais de 90% em 2023 para 85% em 2025. A própria agência faz a conta que interessa: mesmo se todos os projetos de refino planejados no mundo entrarem em operação no prazo, a fatia chinesa recua apenas para 70% a 73% em 2035.

O CSIS chega a números coerentes por outra metodologia: cerca de 90% do processamento global e 99% do processamento de terras raras pesadas. É preciso ter cuidado com a fonte, porque o USGS – a referência oficial americana – não publica participação global de refino: publica dependência líquida de importação dos Estados Unidos (67% em 2025) e a origem dessas importações (China 71%, Malásia 13%, Japão 5%, Estônia 5%). Quem publica o dado global é a IEA. Atribuir ao USGS uma frase sobre refino mundial é o tipo de imprecisão que circula como se fosse precisão.

Por que a separação é o gargalo

O nome engana: são dezessete elementos quimicamente parecidos, que ocorrem juntos e precisam ser separados um a um por extração com solvente, em cadeias de centenas de estágios. É química de precisão, com resíduos radioativos de tório e urânio que exigem licenciamento ambiental específico – a razão pela qual o único moinho de urânio convencional licenciado nos Estados Unidos, o White Mesa Mill, da Energy Fuels, se tornou ativo estratégico.

A IEA descreve o estado da arte fora da China com uma frase que dispensa adjetivos: “apenas algumas instalações de escala industrial operando hoje – na Malásia, nos Estados Unidos e na Estônia”. E dá o prazo médio do setor: cerca de oito anos para um projeto novo amadurecer.

Quem está construindo, e onde

A lista curta é conhecida e vale ser lida sem otimismo. A Lynas, na Malásia, é a única cadeia comprovadamente comercial de separação de elementos leves e pesados fora da China e produziu, em 2025, os primeiros óxidos comerciais de disprósio e térbio fora do país em décadas. A MP Materials, em Mountain Pass, vendeu 1.994 toneladas de óxido de NdPr em 2025 e recebeu do Departamento de Defesa americano um pacote que combina US$ 400 milhões em ações, até US$ 350 milhões adicionais, empréstimo de US$ 150 milhões para separação de pesados, piso de preço de dez anos e contrato de fornecimento de ímãs.

A Neo Performance Materials opera a Silmet, em Sillamäe, na Estônia – planta de origem soviética, a única de escala industrial na Europa – e monta em Narva uma fábrica de ímãs de 2.000 toneladas anuais. A Energy Fuels produz NdPr no White Mesa desde 2024 e apresentou disprósio de 99,9% em escala piloto em agosto de 2025, mas sua segunda fase só espera aprovação regulatória para meados de 2027 e comissionamento para o primeiro trimestre de 2029. Esse cronograma é o dado mais eloquente do setor: é o tempo de rampa real, com dinheiro público já comprometido.

Na Europa, a Solvay inaugurou em abril de 2025 uma linha de NdPr em La Rochelle sem divulgar capacidade, e a Caremag captou €216 milhões para operar em Lacq – projeto que processará 2.000 toneladas anuais de ímãs reciclados e refinará 5.000 toneladas de concentrado, com comissionamento previsto para o fim de 2026. Na Austrália, a refinaria de Eneabba, da Iluka, foi financiada com A$1,25 bilhão do governo australiano em 2022 e tem comissionamento previsto para 2027.

A resposta chinesa não é comercial

Em dezembro de 2023, a China proibiu a exportação das tecnologias de extração e separação de terras raras – não o produto, o conhecimento. Em outubro de 2025, foi além e criou um mecanismo extraterritorial: produtos fabricados fora do país com 0,1% ou mais de insumos de terras raras de origem chinesa passam a exigir licença de Pequim. Esse controle está suspenso por um ano desde então, com validade até novembro de 2026 – ou seja, em vigor na data desta edição.

A mina é geografia. O refino é conhecimento, licença e química – e é por isso que a China pode perder participação mineira sem perder poder nenhum.

O que o dinheiro ocidental compra

O Ocidente respondeu com dinheiro, e os números são grandes. A Casa Branca fala de 160 acordos de minerais críticos desde janeiro de 2025, mais de US$ 40 bilhões, incluindo um estoque estratégico com empréstimo de US$ 10 bilhões do Exim Bank. A Comissão Europeia adotou em dezembro de 2025 o plano RESourceEU, de €3 bilhões, e seu regulamento de matérias-primas críticas fixa metas para 2030 – 10% de extração, 40% de processamento, 25% de reciclagem e nenhum terceiro país acima de 65% do consumo.

Metas e estoques compram tempo. Não compram capacidade: nenhuma dessas metas altera o fato de que a separação exige anos de licenciamento, de química calibrada e de gente treinada que hoje trabalha majoritariamente em um só país. A pergunta que decide a próxima década não é quantas minas o Ocidente abrirá – é quantas plantas de separação conseguirão operar sem engenheiro chinês, e em que ano.