Pezeshkian na Fox: teto de 60% de enriquecimento de urânio iraniano na mesa
Ao oferecer diluir o estoque de urânio enriquecido a 60% e se submeter a verificação internacional numa entrevista à Fox News, 24 horas depois de dizer na ONU que o Irã não se dobra, Pezeshkian empurra para Washington a decisão de encerrar a guerra às vésperas da eleição legislativa de 3 de novembro de 2026 – e recoloca na mesa o memorando de 17 de junho de 2026 que os dois lados deram por morto.
O presidente do Irã, Masoud Pezeshkian, escolheu a rede do presidente dos Estados Unidos para fazer a oferta que a guerra cobra desde 28 de fevereiro de 2026. Na entrevista ao “Special Report”, de Bret Baier, exibida pela Fox News na noite de quinta-feira, 24 de setembro de 2026, ele disse que Teerã aceita reduzir o grau de enriquecimento do urânio que guarda e se submeter a verificação externa. A fala veio 24 horas depois de ele subir à tribuna da 81ª Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) para dizer que o país “nunca vai baixar a cabeça nem se dobrar”.
Perguntado sobre o urânio que o Irã enterrou sob uma montanha, Pezeshkian tratou a concessão como trivial: “Dissemos que estamos dispostos a diluí-los. Não é grande coisa. Estamos dispostos a nos submeter à verificação”, afirmou, segundo a transcrição publicada pela Fox News. O entrevistador abriu a conversa pelo ponto que sustenta a ofensiva dos Estados Unidos desde o início, o programa nuclear, e ouviu a negativa de sempre: o Irã não busca a bomba, amparado na fatwa de Khamenei – editada em meados dos anos 1990 e tornada pública em 2003 – que declara a arma ilícita; o guia que a assinou foi assassinado na primeira hora da guerra, em 28/02, e a vigência da proibição sem ele já é disputada no clero.
O que a oferta inclui e o que fica de fora
A base jurídica que Pezeshkian invocou para sustentar a oferta é o Tratado de Não Proliferação Nuclear (TNP), e registrou a proposta: “No âmbito do direito internacional e com base no Tratado de Não Proliferação Nuclear, cumpriremos tudo o que as normas exigirem de nós.” O que essa fórmula esconde é o que a própria reportagem lembra: o TNP dá ao Irã o direito ao uso pacífico da energia nuclear, inclusive o enriquecimento, sob fiscalização da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), e não fixa limite numérico algum – nem os 3,67% do combustível de reator, nem os 60% que Teerã chegou a produzir.
Diluir o estoque que já existe e parar de produzir estoque novo são operações distintas, e Pezeshkian ofereceu a primeira. A segunda, que exigiria desmontar centrífugas e aceitar um teto de enriquecimento, não apareceu na entrevista.
A verificação que hoje ninguém consegue fazer
A oferta de aceitar inspeção chega no momento em que a inspeção está interrompida. Em 9 de setembro de 2026, a Junta de Governadores da AIEA encaminhou o Irã ao Conselho de Segurança da ONU por descumprimento das obrigações de salvaguardas – a primeira vez em 20 anos, segundo a National Public Radio (NPR). A agência informa que o país restringe o acesso dos inspetores e que não consegue verificar os estoques de urânio enriquecido em grau próximo do militar. Quem não pode medir o estoque também não pode confirmar a diluição, e o retorno dos inspetores entra na negociação como ativo que Teerã ainda não entregou.
O memorando que os dois lados deram por morto
O acordo que Pezeshkian diz ter assinado com Trump existe, e foi assinado em 17 de junho de 2026 com mediação do Paquistão – um texto de 14 pontos com prazo de 60 dias para o acordo final. O parágrafo nuclear do memorando já previa o que ele ofereceu na televisão estadunidense: as partes acordaram resolver o destino do material enriquecido estocado por um mecanismo cujo “método mínimo” seria a diluição no próprio local, sob supervisão da AIEA, e deixaram a discussão sobre o enriquecimento para o acordo final, conforme o texto divulgado. O documento também previa o fim do bloqueio naval em 30 dias, passagem livre pelo estreito sem cobrança por 60 dias e um plano de reconstrução de pelo menos US$ 300 bilhões.
O memorando não completou um mês. Dez dias depois da assinatura, os dois lados voltaram a se atacar, na disputa sobre quem autorizava as rotas de navegação em Ormuz; em 7 de julho de 2026, Trump declarou o acordo “encerrado”, e autoridades iranianas responderam suspendendo as próprias obrigações. O prazo de 60 dias venceu em 17 de agosto de 2026 sem acordo final. Interrogado na Fox sobre a ruptura, Pezeshkian devolveu a pergunta: “Por que, duas semanas depois da assinatura de um acordo, eles escolheram explodi-lo?”
O parágrafo nuclear era o trecho menos contestado do memorando de junho. O que derrubou o acordo foi a disputa sobre quem manda no Estreito de Ormuz.
A pressão muda de lado
Na mesma quinta-feira, negociadores dos dois países discutiam em Nova York um caminho em etapas para sair da guerra, com a reabertura de Ormuz de um lado e o fim do bloqueio econômico do outro, além de acesso a ativos congelados, segundo a Reuters. Um funcionário da Casa Branca disse que Trump segue aberto a conversar, mas que os Estados Unidos não precisam negociar porque estão em posição forte; a Casa Branca e o Departamento de Estado não responderam aos pedidos de comentário da agência. O chanceler Abbas Araghchi apresentou uma proposta de sete dias para reabrir o estreito, e Teerã sinaliza preferir um acordo antes da eleição legislativa, segundo a Bloomberg. O mercado reagiu aos dois sinais: o Brent caiu para perto de US$ 106 o barril com a notícia de que as partes voltaram a conversar, depois de subir mais de 7% em dois dias.
Trump disse na tribuna da ONU que pode “aniquilar” o país se não houver acordo e, ao mesmo tempo, que acredita que o entendimento sairá depois da eleição; Pezeshkian respondeu que, para Teerã, antes ou depois da votação dá no mesmo. A diferença entre as duas frases desenha o impasse da semana: a oferta de diluir urânio foi feita na televisão dos Estados Unidos, com os dois lados negociando em Nova York e o preço do combustível na conta da campanha, e a decisão ficou com Washington. Aceitar antes da votação significa exibir uma concessão nuclear no meio da eleição; recusar significa assumir a guerra que já dura quase sete meses.
A entrevista não tratou só de urânio. Pezeshkian negou conhecer as imagens de satélite que o entrevistador associou ao ataque a uma base dos Estados Unidos na Jordânia – “não tenho conhecimento dessas imagens” – e negou que Teerã tenha fechado Ormuz: “Não fechamos o Estreito de Ormuz. Ele estava aberto, sem qualquer justificativa legal. Eles nos atacaram.” As duas respostas fazem parte do mesmo movimento da oferta: retirar de Teerã a autoria da escalada antes de pedir que Washington escolha encerrá-la.
Quem responde pela oferta
Pezeshkian é a face civil de um sistema em que o poder militar não passa pelo gabinete. A imprensa alinhada à Guarda Revolucionária tratou a negociação como erro: depois do discurso na ONU, o jornal Kayhan escreveu que o presidente transformou Nova York num tribunal contra Washington e Tel Aviv, e o Javan levou à primeira página a frase “não nos renderemos”, enquanto um artigo do Tasnim classificou os contatos de Araghchi com os enviados de Washington como um grande presente para Trump, segundo o Iran International, veículo iraniano no exílio. Mojtaba Khamenei, sucedeu o pai assassinado em 28 de fevereiro de 2026 e segue sem aparecer em público, e os centros de poder do país migraram para as instituições de segurança.
Na noite de quinta-feira, o que Washington teve na mesa foi a oferta de um presidente que não comanda as Forças Armadas nem a Guarda Revolucionária, feita na rede do presidente dos Estados Unidos e endereçada à opinião pública do país. O episódio deixa perguntas abertas. Quem, em Teerã, assina essa oferta: o presidente que a enunciou, a Guarda Revolucionária ou Mojtaba Khamenei, o líder supremo que assumiu em março de 2026? E, caso Trump aceite, como confiar em um Estado incapaz de respeitar acordos?