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Moldávia: a eleição que a Europa fingiu não estar disputando

Um ano depois de vencer com 55 de 101 mandatos, o governo moldavo já trocou de primeiro-ministro duas vezes – e governa com a energia sob emergência e a Transnístria como alavanca.

Há um ano, os moldavos foram às urnas sob o som das bombas na fronteira ucraniana e com a conta de energia na mão. O PAS venceu – e venceu o suficiente para governar. O que se viu desde então explica por que a Europa tratou aquela eleição como procedimento técnico enquanto Moscou a tratava como disputa: o instrumento da disputa nunca foi o voto.

O resultado oficial de 28 de setembro de 2025 deu ao PAS 50,20% dos votos e 55 dos 101 mandatos. A maioria exigida é 51. São quatro deputados de margem, contra os 63 mandatos de 2021 – e é essa erosão, não uma maioria formalmente inviável, que explica o que aconteceu depois. A oposição ficou com o Bloco Eleitoral Patriótico (26 mandatos), o Bloco Alternativa (8), o Partido Nós (6) e a Democracia em Casa (6). A participação foi de 52,21%, e a diáspora – 277.964 votos em 301 seções de 45 países, com 78,61% no PAS – fez a diferença.

O governo que não parou de pé

Em dez meses, a Moldávia trocou de primeiro-ministro duas vezes. Alexandru Munteanu assumiu em 31 de outubro de 2025, substituindo Dorin Recean, e renunciou em 3 de julho de 2026, depois de oito meses, alegando não poder exercer o cargo segundo seus princípios. Vasile Tofan foi investido em 21 de julho de 2026 com 53 votos – a oposição se absteve ou votou contra – e prometeu mandato até setembro de 2029 e assinatura do tratado de adesão à União Europeia até o fim de 2028.

A oposição pede eleições antecipadas. O Partido dos Socialistas afirma que o país “precisa” delas, e o MAN apresentou moção de censura em julho. Não houve dissolução, e o calendário regular segue de pé: eleições locais novas e referendo local em sete localidades em 1º de novembro de 2026, eleição do Bașcan e da Assembleia Popular da Gagauzia em 15 de novembro e presidencial da Transnístria em 13 de dezembro.

Onde a disputa realmente aconteceu

Em 31 de dezembro de 2024, às 19h50, o gás russo deixou de chegar à Transnístria com a expiração do acordo de trânsito entre Rússia e Ucrânia. A região perdeu aquecimento central, água quente e gás, indústrias pararam, houve cortes rotativos de eletricidade e a central de Cuciurgan passou a queimar carvão com reservas anunciadas para cerca de cinquenta dias; três pessoas morreram por intoxicação com monóxido de carbono.

A Comissão Europeia reagiu rápido e com dinheiro: um pacote de emergência de 30 milhões de euros em janeiro de 2025 – 20 milhões para comprar gás destinado à Transnístria, 10 milhões para eletricidade na margem direita –, seguido de uma estratégia de dois anos com 250 milhões de euros de apoio em 2025 e uma oferta adicional de 60 milhões para a região transnistriana sujeita a condições em matéria de direitos fundamentais.

Aí está a disputa que a Europa não quis nomear como disputa: a ajuda à Transnístria é a alavanca de Chisinau sobre um território que Moscou trata como zona própria – e a condicionalidade em direitos fundamentais é o reconhecimento de que o dinheiro vale como instrumento político, não como caridade.

Do lado da margem direita, a mudança foi estrutural. Em 1º de setembro de 2025, a estatal Energocom substituiu a Moldovagaz – mais de 60% da Gazprom – como fornecedor de gás, depois de a autoridade reguladora ter revogado a licença da antiga operadora. O país deixou de comprar eletricidade da central de Cuciurgan, que fornecia até 80% do consumo da margem direita, e passou a importar da Romênia e da Ucrânia. Em março de 2026, ataques russos a infraestrutura ucraniana derrubaram a linha Vulcănești-Isaccea e o país viveu um mês de estado de emergência energética, com déficit de até 400 megawatts nos horários de pico.

A Moldávia trocou de fornecedor, de rota e de preço. Não trocou de geografia – e é a geografia que define o custo de cada inverno.

O inverno como calendário político

Para a estação de aquecimento 2026-2027, a Energocom já comprou integralmente o volume previsto de outubro a março e assegurou 76% do ano-gás; o preço final sai de fórmula indexada ao índice TTF, e o gás de agosto de 2026 foi comprado a 57,80 euros por megawatt-hora. A reguladora fixou obrigação de armazenar mais de 140 milhões de metros cúbicos até 1º de novembro de 2026 – e o país não tem armazenamento próprio, guarda em vizinhos.

O plano de inverno aprovado em setembro de 2026 tem 52 medidas e duas honestidades que valem nota: prevê a entrada em operação comercial da linha de 400 kV Vulcănești-Chișinău até o fim de outubro e determina que se elabore, até 1º de dezembro, um plano para gerir uma eventual interrupção do fornecimento de gás à Transnístria. Ou seja: o governo moldavo, que diz publicamente que a reintegração é pacífica, prepara-se formalmente para o dia em que o gasoduto da região pare.

A Europa, do outro lado, segue com o processo de adesão em marcha técnica – relatório de novembro de 2025, decisões do Conselho em junho e julho de 2026 – e com a Moldávia comprando gás a preço de mercado. A soberania energética foi conquistada; o preço é cobrado todo mês, em moeda europeia, e continuará sendo enquanto a única interligação de alta capacidade do país com a União for uma linha que leva o nome de uma cidade a 100 quilômetros da fronteira ucraniana.