Lavrov na ONU: a lista de alvos e a carta dos nove
O chanceler russo tratou a multipolaridade como processo em curso e organizou o discurso em quatro movimentos: a lista datada de alvos do uso da força dos Estados Unidos, a reforma que Moscou quer na ONU, a carta que nasceu fora dela com nove assinaturas e a Ucrânia sem roteiro novo.
Em 26 de setembro de 2026, o chanceler russo, Serguei Lavrov, subiu à tribuna do debate geral da 81ª sessão da Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova York, com um diagnóstico que não pede adesão de ninguém: as mudanças tectônicas da política mundial já estão em curso e a ordem multipolar nasce diante dos olhos. Os países do Sul e do Leste Global, disse ele, afirmam-se como “centros soberanos de desenvolvimento” e assumem a segurança das próprias regiões. A minoria ocidental, que, segundo ele, dominou cinco séculos à custa de recursos alheios, recorre cada vez mais à força e tenta impor as próprias “regras”. Para resumir o adversário, Lavrov citou Vladimir Putin: a ditadura de um só hegemon “foi à loucura e é simplesmente perigosa para quem está ao redor”.
O discurso tem quatro movimentos, e o primeiro é um inventário de acusações com data em cada item. A Venezuela abre a lista: a invasão estadunidense no início de 2026, disse ele, terminou com a captura do presidente Nicolás Maduro e da esposa, mantidos sem julgamento numa prisão dos Estados Unidos, e a exigência é a libertação imediata dos dois, com base nas imunidades que o direito internacional garante a chefes de Estado.
O item mais longo é o Irã. Lavrov classificou como “mais uma manifestação inaceitável” da imposição pela força a morte do líder supremo, o aiatolá Ali Khamenei, de membros da família dele e de quadros militares e políticos da República Islâmica. E datou a campanha: a agressão norte-americana e israelense, na formulação dele, começou em junho de 2025 e teve como alvos não só a infraestrutura civil do país, mas também instalações nucleares pacíficas sob salvaguardas da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) – o que, na avaliação dele, causou dano irreparável à autoridade da agência e a todo o regime de não proliferação.
O estreito de Ormuz e o Golfo Pérsico fecham esse bloco: as recidivas da confrontação armada continuam, com dano evidente para a navegação e o comércio mundiais, e a condição que Moscou põe para destravar a crise é a confiança entre os Estados árabes do Golfo e o Irã, dentro da proposta de segurança coletiva para a região apresentada pela Rússia. Sobre a Palestina, o alvo da acusação é o próprio Conselho de Segurança. O plano de paz de 20 pontos apresentado pelos Estados Unidos e endossado na resolução 2803 não fez cessar a morte de idosos, mulheres e crianças em Gaza, e a força internacional de estabilização prevista segue sem ser desdobrada. A Rússia se absteve naquela votação, e o motivo que Lavrov deu para a abstenção é direto: o texto não mencionava a ONU uma única vez, e a abstenção atendeu a um pedido da maioria dos países árabes, com a China fazendo o mesmo. Na Cisjordânia, ele apontou a ampliação dos assentamentos e as decisões sobre Jerusalém Oriental, que, se aplicadas, cortam a ligação entre a Faixa de Gaza e a Cisjordânia.
“Se as coisas continuarem assim, será impossível criar um Estado palestino. Simplesmente não sobrará terra para ele.”
Cuba encerra o capítulo americano, com o pedido de suspensão do bloqueio marítimo e de retirada do país da lista estadunidense de patrocinadores do terrorismo, sob o argumento de pressão sem precedentes do vizinho do norte. Fora do continente, o inventário chega aos Bálcãs, e ali a acusação muda de endereço e vai para Bruxelas: a União Europeia, segundo ele, ignora a resolução 1244 do Conselho de Segurança e empurra a Sérvia a sancionar a Rússia, enquanto os sérvios da Bósnia e Herzegovina são pressionados a abandonar competências constitucionais garantidas pelo Acordo de Dayton.
A reforma que ele quer decidir em Nova York
Dos quatro movimentos, o segundo é o que interessa a quem acompanha a ONU. Lavrov rejeitou qualquer assento permanente novo para países ocidentais, “muito menos” para Alemanha e Japão, que, segundo ele, entraram num caminho de militarização e revanchismo, e apoiou nominalmente as candidaturas do Brasil e da Índia a membro permanente, com aumento da representação africana segundo o Consenso de Ezulwini e a Declaração de Sirte.
O outro item com prazo é a escolha do novo secretário-geral, que a Assembleia deve fazer até o fim de 2026. O critério que ele fixou é a imparcialidade: alguém que represente todos os membros, que não tome partido quando o Conselho se divide, que não esvazie as prerrogativas do Conselho de Segurança nem a natureza intergovernamental da casa. Na entrevista coletiva que deu em seguida, foi mais direto sobre a gestão atual: a equipe chefiada por António Guterres promove abordagens enviesadas e “dois pesos, duas medidas” e, na prática, serve a um grupo de países ocidentais. O número que ele deu para sustentar a acusação é este: sete ou oito dos cargos mais importantes do Secretariado são ocupados por cidadãos ou súditos de Estados membros da OTAN.
A prova de duplo padrão que ele escolheu é a Groenlândia. Perguntado sobre o assunto, Guterres e o porta-voz dele respondem que a questão deve ser resolvida com base na Carta da ONU, nas resoluções da Assembleia Geral, na integridade territorial da Dinamarca e no direito dos groenlandeses à autodeterminação. Lavrov contou que levou a pergunta ao próprio secretário-geral, dias antes: por que a autodeterminação nunca aparece como opção quando o assunto é a Ucrânia? E acrescentou o que enfraquece a resposta que ouviu: Estados Unidos, Dinamarca e Groenlândia assinaram acordos que ampliam o controle militar estadunidense na ilha e fixam essa presença para sempre, inclusive no caso de um referendo de autodeterminação.
A carta que nasceu fora dela
O terceiro movimento é o que não depende de votação nenhuma. No dia anterior ao discurso, 25 de setembro de 2026, nove Estados assinaram em Nova York o comunicado que inaugura a negociação da Carta Eurasiática sobre a Diversidade e a Multipolaridade no Século 21: Belarus, Irã, Cazaquistão, Quirguistão, Laos, Mianmar, Rússia, Tajiquistão e Vietnã. O texto reafirma o papel central da ONU, cria um grupo de trabalho com decisões por consenso e abre a negociação a todos os Estados eurasiáticos interessados. Cerca de 10 delegações, disse Lavrov na coletiva, já pediram para entrar no grupo de especialistas, que começa a trabalhar antes do fim do ano.
Entre os nove signatários, não estão China, Índia, Brasil, África do Sul, Turquia nem Indonésia. Essa ausência evidencia a diferença entre os dois movimentos institucionais do discurso de Moscou: enquanto a reforma do Conselho de Segurança da ONU depende do apoio de grandes potências do Sul Global, a Carta já reúne um grupo mais restrito de países dispostos a aderir à iniciativa russa, sem necessidade de negociação ou aprovação no âmbito das Nações Unidas. Nada no comunicado indica que a Rússia pretenda substituir a ONU: o texto diz o contrário, e Lavrov apresentou a iniciativa como complemento e harmonização dos mecanismos existentes. O que a assinatura de 25 de setembro mede é a assimetria: nove Estados conseguem se reunir em torno de um documento próprio; a reforma do Conselho, que precisa de Brasil e Índia, segue sem consenso.
Ucrânia, sem roteiro novo
O quarto movimento é a Ucrânia, onde nada mudou. Lavrov repetiu a justificativa da operação iniciada em 2022 para proteger Donbass e Novorossiya, disse que os objetivos serão alcançados “apesar de quaisquer circunstâncias” e atribuiu à Europa o bloqueio das negociações: para ele, os europeus armam Kiev, ajudam a mirar civis e infraestrutura civil na Rússia e frustram as conversas nas quais muitos estão interessados, “inclusive a administração de Donald Trump”. A cadeia de episódios que ele ofereceu como prova é a mesma que repete há anos: o acordo de fevereiro de 2014 garantido por Alemanha, França e Polônia e rompido no dia seguinte, os Acordos de Minsk sabotados, a cúpula de Paris de dezembro de 2019, os entendimentos de Istambul de abril de 2022 abandonados após a intervenção do então primeiro-ministro britânico Boris Johnson, e o que ele chama de recuo americano no Alasca. A reunião especial do Conselho de Segurança sobre a Ucrânia, convocada pela França em 23 de setembro de 2026, ouviu dele a mesma cronologia, três dias antes.
Ele dedicou o trecho final ao que chama de herança do nazismo, a 80 anos do fim do Tribunal de Nuremberg, que se completam em 1º de outubro de 2026. Acusou os governos da União Europeia de tolerar “o nazismo ucraniano” enquanto a língua russa é proibida na Ucrânia, e cobrou do chanceler alemão, Friedrich Merz, a promessa de tornar a Alemanha “novamente” a principal potência militar da Europa. Voltou ainda ao episódio de Bucha, em abril de 2022, para dizer que a cena foi montada e que os nomes gravados no memorial da cidade são de criminosos de guerra. A alegação é tese do governo russo sustentada por um relatório de um movimento civil russo.
A única resposta de um dos visados que ficou registrada no mesmo sábado, 26 de setembro de 2026, veio de Berlim: Lavrov e o chanceler alemão Johann Wadephul se reuniram por 20 minutos, no primeiro encontro ministerial entre os dois países desde a invasão da Ucrânia, em 2022, e fontes diplomáticas alemãs disseram que Wadephul pediu a Moscou que abandonasse o “caminho perigoso de escalada” contra a Alemanha, a Europa e a OTAN. No mesmo dia, ataques cruzados entre Rússia e Ucrânia deixaram ao menos sete mortos, quatro em regiões ucranianas e três em Krasnodar, no sul da Rússia, conforme o relato de autoridades dos dois lados.
Até dezembro de 2026, a ONU elege o novo secretário-geral e o grupo de trabalho da Carta Eurasiática começa a operar. Se a reforma e a escolha do secretariado saírem como Moscou quer, a Carta vira moeda de troca dentro do sistema das Nações Unidas; se não saírem, ela já está escrita, com nove assinaturas e negociação aberta a quem quiser entrar, sem depender de voto em Nova York. É essa dupla aposta que o discurso de 26 de setembro deixa como programa.