Israel vota, e a ocupação não entra em recesso
A votação domina o noticiário, mas o que muda o terreno acontece longe das urnas: demolições, detenções, ataques no Líbano e 255 prédios condenados em Gaza. A Europa encontrou a frase – ainda não encontrou o instrumento.
O noticiário israelense desta semana tem um centro de gravidade previsível: a votação que, segundo o The Hindu, levou o país às urnas com Benjamin Netanyahu em queda nas pesquisas e uma nova sigla emergindo como favorita; no dia seguinte, o mesmo jornal registrava que o primeiro-ministro já articulava um “governo nacional amplo”. O resultado ainda não está fechado no material disponível. Mas a pergunta que importa ao resto do mundo não depende dele: o que a máquina israelense fez enquanto o país votava?
A resposta, olhando o que foi registrado nas últimas 72 horas, é: tudo o que já fazia. E é aí que está o dado político, não na apuração.
O que aconteceu enquanto se votava
Na Cisjordânia, um israelense foi morto a tiros perto do assentamento de Halamish e soldados israelenses mataram um motorista palestino, segundo a Reuters, a France24, o New York Times, o Hindustan Times e o Mehr News. Netanyahu ordenou a demolição da casa do atirador, relata o Times of India. Na mesma jornada, forças israelenses detiveram 27 palestinos numa incursão a uma vila, segundo a Wafa citada pelo Middle East Eye, e colonos incendiaram um veículo palestino e tentaram levar uma criança, conforme o mesmo veículo. O Escritório de Coordenação de Assuntos Humanitários da ONU, citado pelo Middle East Eye, registra que famílias chefiadas por mulheres na Cisjordânia enfrentam risco maior de deslocamento.
A demolição de casas é o instrumento mais antigo desse repertório, e o menos dependente de quem governa. Ela não precisa de aprovação orçamentária, não passa por coalizão e não aparece em debate eleitoral. Vai sendo executada por ordem administrativa, uma casa por vez, enquanto o país discute outra coisa.
O que a eleição israelense decide é quem assina os papéis. Não é se os papéis continuam sendo assinados.
O presidente israelense perdoou o ex-soldado Elor Azaria, condenado por matar um palestino ferido em 2016 na Cisjordânia, noticiado pelo New York Times, pela Al Jazeera, pelo Middle East Eye e pelo Times of India. Um perdão presidencial diz menos sobre o caso do que sobre a régua do Estado: o que ele trata como excesso e o que trata como serviço. E há ainda o que o Le Monde resumiu numa frase que vale mais como sintoma do que como análise: “Netanyahu sabotou literalmente a diplomacia israelense”.
A Europa fala em custo, e o custo fica na gaveta
O New York Times descreve um esfriamento nas relações entre Reino Unido e Israel motivado pelos assentamentos na Cisjordânia, e a Reuters registra que a relação entre União Europeia e Israel foi tema de conversa entre um comissário europeu e um ministro israelense. São dois sinais na mesma direção: o vocabulário europeu mudou.
Mudou o vocabulário, não o comércio. A União Europeia mantém com Israel um dos seus acordos de associação mais generosos, e enquanto ele estiver de pé cada crítica é declaração de intenção. É essa a assimetria que a rodada das últimas horas expõe: a Europa encontrou a frase, ainda não encontrou o instrumento.
A frente que saiu do noticiário e não saiu do mapa
No Líbano, ataques israelenses atingiram a região de Nabatieh, incluindo uma equipe de ambulância, segundo o Middle East Eye, e localidades da área de Tiro, segundo o Mehr News. A Al Jazeera registrou, em separado, ataques a paramédicos no sul do Líbano, e o Middle East Eye, uma casa destruída no mesmo período. Três veículos independentes descrevendo o mesmo tipo de alvo: pessoal médico.
Atacar ambulâncias e paramédicos não altera o equilíbrio militar. Altera o que sobra depois. Uma equipe de resgate destruída é uma capacidade que não volta quando a próxima casa cair, e é isso que faz da campanha no sul do Líbano menos um episódio militar e mais uma operação de subtração de futuro.
Gaza: 255 prédios e um ano letivo
As autoridades de Gaza anunciaram um plano para demolir 255 prédios danificados pela guerra, segundo o Middle East Eye, no mesmo momento em que o ano letivo recomeça em escolas atingidas, relatado pelo G1 e pela Al Jazeera. O Ministério da Saúde de Gaza, citado pelo Mehr News, informa um total acumulado de 73.913 mortos desde o início da guerra, número da autoridade local, sem verificação independente.
Há uma diferença entre reconstruir e demolir, e ela cabe numa linha: reconstruir admite que algo vai voltar a existir. Demolir oficializa o contrário, ao transformar a ruína em decisão administrativa. Escolas funcionando em prédios atingidos e 255 endereços condenados ao mesmo tempo descrevem o estado atual: sobreviver com o mínimo, e com a certeza de que o mínimo não será reparado.
O que sobra para quem lê
Israel vai fechar a apuração, formar algum governo e apresentar ao mundo um novo mapa de coalizão. Nenhuma dessas etapas precisa mexer numa única linha do que aconteceu em Halamish, em Nabatieh ou nas 255 plantas assinadas em Gaza.
É por isso que a pergunta “quem ganhou a eleição” convive mal com a pergunta que este texto tenta responder. A ocupação não estava em disputa. O que estava em disputa era quem assina os próximos papéis, e os papéis, como mostram as últimas 72 horas, seguem sendo assinados.