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Geopolítica antes das manchetes
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O que a Índia aprendeu com a não-escolha

Multialinhamento como método de Estado, testado em três crises consecutivas.

Há um ano e meio, a pergunta que se fazia sobre a Índia era qual lado ela escolheria. A resposta que Nova Délhi deu foi outra: não escolher e continuar cobrando de todos. Três crises consecutivas serviram de teste, e o resultado é menos uma vitória moral do que um método de Estado – caro, reversível e que só funciona enquanto os três parceiros precisarem dela.

O termo que descreve isso tem autor. “Multialinhamento” foi cunhado por Shashi Tharoor nos anos 2000, apresentado sem sucesso na conferência anual de embaixadores indianos em 2009 e adotado por S. Jaishankar, que o transformou em vocabulário oficial do Ministério das Relações Exteriores. É preciso dizer o que isso significa: trata-se de um nome de think tank que virou fala ministerial, sem doutrina codificada em documento. A Índia pratica algo que ainda não escreveu em papel.

Primeiro teste: a guerra de quatro dias

Em 22 de abril de 2025, um ataque em Pahalgam matou 26 civis em Jammu e Caxemira. A Índia suspendeu no dia seguinte o Tratado das Águas do Indo de 1960, mantendo-o “em abeyance”, e lançou em 7 de maio a Operação Sindoor, com mísseis e ataques aéreos a nove alvos no Paquistão e na Caxemira paquistanesa. O cessar-fogo veio em 10 de maio, por linha direta entre os diretores de operações militares.

O episódio deixou duas marcas. A primeira é que a Índia recusou a mediação americana sobre Caxemira, reafirmando que o assunto é bilateral. A segunda é que, quando Donald Trump disse ter oferecido concessões comerciais para induzir o cessar-fogo, o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Randhir Jaiswal, negou com precisão burocrática: o tema do comércio não apareceu em nenhuma daquelas conversas. Em uma crise de quatro dias, a Índia aceitou o desfecho e recusou a narrativa.

Segundo teste: o vizinho que voltou a falar

Com a China, o movimento foi inverso em tom e igual em método. Em outubro de 2024, os dois países acertaram arranjos de patrulhamento na LAC em Depsang e Demchok, encerrando o impasse aberto em 2020. Em agosto de 2025, depois da visita de Wang Yi para a 24ª rodada de conversas, vieram acordo para retomar voos diretos suspensos desde 2020, reabertura do comércio de fronteira em três pontos e um grupo de trabalho para delimitação.

Em setembro de 2026, Xi Jinping esteve em Nova Délhi para a cúpula do BRICS – a primeira visita à Índia desde o choque de Galwan – e os dois declararam compromisso com “paz e tranquilidade” na fronteira e disposição de tratar o desequilíbrio comercial estrutural. Não houve concessão territorial: houve normalização de processo, com a fronteira ainda por delimitar.

Vale a honestidade analítica: se “crise” significa atrito físico, o teste com a China é de 2020, não de 2026. O que se testou no último ano foi a capacidade de transformar congelamento em rotina.

Terceiro teste: o preço da compra russa

O teste mais duro veio de Washington. Em agosto de 2025, os Estados Unidos somaram 25% de tarifa punitiva à tarifa recíproca de 25%, atingindo 50% sobre produtos indianos – o maior patamar aplicado a um grande parceiro naquele momento. A justificativa era explícita: a compra de petróleo russo.

Em fevereiro de 2026 veio o acordo. A Casa Branca anunciou a retirada dos 25% adicionais “em reconhecimento ao compromisso da Índia de interromper a compra de petróleo da Federação Russa”, com a tarifa recíproca caindo para 18%, e listou em fact sheet oficial o que Nova Délhi concede em bens industriais, agrícolas, comércio digital e controles de exportação.

Duas coisas ficaram sem assinatura. A primeira é o compromisso sobre o petróleo: nenhum documento indiano confirma a promessa, e refinarias do país seguiam contratando carga russa para setembro e outubro de 2026. A segunda é o próprio acordo. Em setembro de 2026, a Câmara dos Representantes aprovou projeto que autoriza tarifas de até 100% contra países com dependência de energia russa; o Ministério das Relações Exteriores reagiu em tom incomum, dizendo que as medidas podem afetar a relação bilateral e que a segurança energética de 1,4 bilhão de pessoas é negociável com ninguém.

A Índia não escolheu entre Moscou e Washington: ela transformou a própria não-escolha em ativo – e agora descobre que o ativo tem contraparte.

O que sustenta o método

O multialinhamento só é praticável porque a Índia tem com o que pagar em cada mesa. Em defesa, a diversificação é medida e antiga: a Rússia respondia por 55% das importações indianas de armamento em 2015-19, caiu para 36% em 2020-24, segundo o SIPRI, enquanto França e Israel ganharam espaço. O contrato de 26 caças Rafale-Marine, de cerca de 7,4 bilhões de dólares, e a negociação de 114 caças adicionais com produção local mostram que a alternativa europeia deixou de ser retórica.

E, no fundo da equação, está a produção doméstica: segundo o Press Information Bureau, a produção indiana de defesa chegou a 1,78 lakh crore de rupias no exercício 2025-26 e as exportações bateram recorde de 38.424 crore, contra 686 crore em 2013-14.

O método, porém, tem um limite estrutural que nenhuma retórica resolve: ele depende de que os três parceiros continuem precisando da Índia mais do que a Índia precisa de cada um deles. Enquanto o projeto de sanções de 2026 estiver vivo e a fronteira com a China continuar sem delimitação, a não-escolha seguirá sendo cobrada em cada rodada – e a data em que ela deixar de ser lucrativa não está marcada em nenhum calendário indiano.