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Vinte e duas pessoas baleadas, dezenove delas dentro de carros

Uma revisão caso a caso dos disparos de agentes federais de imigração desde janeiro de 2025 mostra onde o padrão se repete: a abordagem de trânsito responde por dezenove dos vinte e dois baleados e por quatro das seis mortes. Em Austin, o homem atingido no domingo já está sob custódia federal à espera de deportação, e o inquérito do disparo segue com a agência que atirou.

Wilber Rafael Garcés Pérez, venezuelano de 28 anos, entregava comida pelo DoorDash no norte de Austin quando um agente do Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos (ICE) atirou nele dentro do carro, no início da tarde de domingo. Ele foi levado a um hospital em estado grave mas estável e, no mesmo dia, o Departamento de Segurança Interna (DHS) informou que ele tem ordem final de remoção e está sob custódia federal à espera da deportação. A investigação do disparo ficou com o Serviço de Investigações de Segurança Interna (HSI), o braço investigativo do próprio departamento, com apoio da polícia federal americana (FBI).

O episódio isolado tem três elementos que, vistos em série, deixam de parecer coincidência: o lugar do disparo, a versão que a agência apresenta e quem apura o caso.

Onde o padrão se repete

Uma revisão da States Newsroom publicada em 20 de julho, cruzando noticiário e documentos, contou 22 pessoas baleadas por agentes federais de imigração desde a posse de Donald Trump, em janeiro de 2025. Dezenove desses episódios, quase todos, envolveram agentes do DHS atirando em pessoas dentro de veículos durante abordagens de trânsito. Seis pessoas morreram, três delas cidadãs americanas, e quatro das mortes ocorreram nessas abordagens. A 22ª foi Johan Sebastián Durán Guerrero, colombiano de 25 anos com autorização de trabalho, morto em Biddeford, no Maine, em 13 de julho.

Nas horas seguintes a esses episódios, o DHS acusou quem havia sido baleado de usar o veículo como arma. Vídeos independentes contradisseram essa versão em vários casos, e em pelo menos cinco o próprio governo retirou as acusações que apresentara contra as pessoas que seus agentes feriram.

O padrão de abordagem tem números próprios. Num levantamento de 1.200 incidentes de fiscalização migratória em oito estados, a União Americana pelas Liberdades Civis contou 76 pessoas arrancadas de dentro de carros, 47 vidros quebrados e 14 episódios em que viaturas foram jogadas contra carros de civis.

A regra que durou um dia

Depois da morte no Maine, a segunda de um imigrante baleado em abordagem de trânsito em uma semana, o ICE orientou seus agentes a suspender a maior parte dessas abordagens. A orientação durou um dia: Trump determinou que a prática continuasse, e a porta-voz da Casa Branca, Karoline Leavitt, explicou que os agentes seguem fazendo paradas de veículos “para continuar sua campanha de deportação”.

O que ficou no lugar da regra foi a palavra falada. Segundo o deputado Seth Magaziner, que participou de um briefing fechado do ICE em 22 de julho, a instrução atual é fazer abordagens apenas quando não houver alternativa, com luzes e sirenes acionadas, e ela nunca foi escrita. Os agentes envolvidos nos dois tiroteios fatais de julho não estavam com câmeras corporais, e o DHS atribuiu a falta a “seguidos shutdowns democratas”.

O último relatório público do DHS sobre uso de força é do ano fiscal de 2023. Os números de 2025 e de 2026 existem porque redações e organizações de direitos civis passaram a contar caso a caso.

Quem apura o quê

Não há nos Estados Unidos um órgão independente encarregado de investigar os tiroteios de agentes federais de imigração. Por padrão, quem conduz é o inspetor-geral do DHS, que pertence ao mesmo departamento. Em julho, o FBI deixou de investigar confrontos e agressões contra agentes do ICE. A divisão de direitos civis do Departamento de Justiça recusou abrir apuração criminal nas mortes de Minneapolis e do Maine. Bennie Thompson, deputado que saiu do briefing de julho com mais perguntas do que respostas, resumiu o problema: os funcionários diziam a ele que o caso às vezes fica com o FBI, às vezes com o HSI, às vezes com outra entidade.

As autoridades locais ficaram de fora. Em Minnesota, o Bureau de Investigação Criminal do estado teve o acesso às cenas bloqueado por agentes federais, e a procuradoria do condado de Hennepin só obteve provas depois de meses de litígio. No Maine, a procuradoria-geral assumiu a apuração criminal estadual do caso, que corre em paralelo à revisão conduzida pelo próprio DHS. No Texas, o promotor do condado de Harris abriu investigação por conta própria e avisa que o acesso às provas está nas mãos do governo federal.

A conta

O controle interno do ICE, informado ao Congresso em julho, registra 56 queixas de uso excessivo de força desde janeiro de 2025: 32 arquivadas, uma encaminhada para sanção e nenhuma punição aplicada. Em fevereiro, o então diretor interino Todd Lyons havia falado em 37 investigações abertas.

Pela contagem do próprio DHS, o ICE registrou 78 incidentes de uso de força no ano fiscal de 2023, o último dado público da série: dois resultaram em morte, nove em ferimento grave e 19 em ferimento leve. A unidade dessa conta é o incidente, e o escritório de estudos do Congresso registra que a agência por vezes soma vários usos de força num único registro, o que reduz o total. Não existe número oficial de tiroteios do ICE por ano, nem para 2024, nem para 2025, nem para 2026.

A série mais completa que se conhece foi obtida por uma jornalista que litigou dois anos contra a agência: 59 disparos de agentes do ICE entre 2015 e 2021, 23 pessoas mortas, pelo menos 24 feridas e nenhum agente indiciado. Desde então apareceu uma única acusação federal contra um agente, e ela não é pelo disparo. Christian Castro, o agente do ICE que feriu Julio Cesar Sosa-Celis na perna em Minneapolis em janeiro, foi acusado de mentir para investigadores federais, depois de o governo ter retirado as acusações que fizera contra o próprio baleado. Ele se declarou inocente, e o governador do Texas recusou assinar de imediato a extradição pedida por Minnesota.

Jonathan Ross, o agente que matou Renee Good em Minneapolis em 7 de janeiro, ficou três dias de licença, foi transferido em silêncio para outro estado e voltou ao trabalho em funções administrativas, sem acusação, conforme apuração do PunchUp republicada pelo HuffPost em abril. A investigação do FBI está parada, e a revisão interna do ICE não pôde começar, segundo a mesma reportagem. Nos outros casos graves do ano, de Biddeford a Houston, nenhuma consequência foi concluída até setembro.

O que ficou de Austin

Um homem que trabalhava entregando comida foi baleado dentro do carro numa cidade que não conduz a investigação do que aconteceu com ele, e a máquina de remoção que o governo descreve como sua política já o tinha sob custódia antes de o inquérito começar. O desenho que a série de 2025 e 2026 encontra em cada caso é este: as pessoas mudam, os estados mudam, e a parte que decide quem apura continua a mesma.