O gás russo voltou ao mercado europeu pela porta dos fundos
Rotas indiretas, misturas em terminais turcos e um embargo que existe no papel mais do que nas faturas.
O embargo existe, tem número de regulamento e calendário publicado. O gás continua entrando. As duas coisas são verdade ao mesmo tempo, e a distância entre elas não é uma falha de fiscalização: é o desenho da norma diante de um mercado que se organiza por contrato e não por origem.
O Regulamento (UE) 2026/261, adotado em 26 de janeiro de 2026 e aplicável desde 18 de março, proíbe as importações de gás russo por gasoduto e na forma de GNL de maneira escalonada. A Comissão fixou o calendário com precisão: contratos de curto prazo terminam em 25 de abril de 2026 (GNL) e 17 de junho (gasoduto); contratos de longo prazo terminam em 1 de janeiro de 2027 (GNL) e 30 de setembro de 2027 (gasoduto, prorrogável até 1º de novembro se os níveis de armazenamento exigirem).
O texto faz algo que merece leitura lenta: ele proíbe não a molécula, mas o conteúdo russo em misturas. E, para tornar isso aplicável, criou autorização prévia com rastreabilidade – cada Estado-membro verifica o país onde o gás foi produzido antes de autorizar a entrada, o importador declara instalação de liquefação, primeiro porto de carregamento e, no caso de mistura, a proporção de cada origem. O ponto de interligação de Strandzha 1, na fronteira turco-búlgara, é tratado como suspeito por definição: presume-se russo salvo prova inequívoca em contrário.
O problema começa onde a alfândega europeia termina
A Turquia não aplica as sanções europeias. Seu Ministério dos Negócios Estrangeiros é explícito: Ancara cumpre apenas o que o Conselho de Segurança da ONU adota. Bruxelas, como resumiu a POLITICO, tem jurisdição zero sobre a alfândega turca.
Isso importa porque existe um mecanismo conhecido de troca. No acordo entre a búlgara Bulgargaz e a estatal turca BOTAŞ, cargas de GNL encomendadas pela Bulgária são entregues à Turquia e devolvidas à Bulgária na fronteira da União. A analista Aura Săbăduș, da ICIS, descreve o que fica sem resposta: não se sabe se o gás entregue é o mesmo que chegou ao terminal. A própria lei turca ajuda a explicar o resto – todo o gás que entra no país passa automaticamente à propriedade da BOTAŞ, segundo a CREA e o Center for the Study of Democracy, o que permite revender excedente russo ao sudeste europeu sob o nome de mistura turca.
O certificado de origem atesta a papelada, não a molécula: quem tiver a rota e a assinatura certas vende gás russo sem escrever a palavra Rússia em lugar nenhum.
O que os números mostram quando se olha por onde entra
A ACER, que é o regulador europeu e portanto a fonte mais desconfortável para os dois lados, registrou o efeito do novo regime justamente no ponto de entrada turco: queda de cerca de 65% ano a ano nos fluxos russos por gasoduto via Türkiye entre 18 de março e 31 de maio de 2026.
Ao mesmo tempo, o TurkStream é a última grande rota terrestre ativa, com cerca de 16 bilhões de metros cúbicos em 2025 – aproximadamente 3 bilhões rumo a Sérvia, Bósnia-Herzegovina e Macedônia do Norte. E a ACER contabiliza, para 2026, capacidade contratada autorizada de 45 a 55 bilhões de metros cúbicos por ano, entre GNL e gasoduto. A mesma agência admite o limite analítico que interessa: o gás russo importado não é necessariamente consumido onde entra, porque o mercado é integrado e a molécula circula.
No lado do GNL, o recorde é o dado mais incômodo. No primeiro semestre de 2026 a União importou volumes recorde do projeto Yamal – mais de 97% das entregas foram para portos europeus, segundo a Urgewald, e o valor pago no semestre foi de cerca de 5,96 bilhões de euros, conforme apurou a Reuters. O KSE Institute registra que, em junho, 55% dos carregamentos foram transportados por navios geridos fora das jurisdições da UE e do G7 – o dobro da média do trimestre anterior – e que maio trouxe a primeira bandeira falsificada documentada no transporte de GNL russo.
Um embargo que se aplica por etapas tem duas datas por vítima
O desenho escalonado tem uma consequência pouco discutida: enquanto vale a data longa, cada agente econômico tem incentivo para maximizar o volume antes do corte, e não para reduzir. Foi o que o primeiro semestre de 2026 mostrou em Yamal.
E há a brecha declarada. O 21º pacote de sanções, de julho de 2026, ao endurecer a proibição de serviços em terminais, abriu uma isenção temporária de um ano, sujeita a reporte, para transferências de GNL russo a países terceiros. Regime com prazo de validade e cláusula de exceção não é o mesmo que fim do fornecimento – é administração de escassez.
A contabilidade oficial não fecha a conta sozinha: as tabelas da ACER atribuem volumes ao Estado-membro onde o gás foi liberado para livre circulação, não à origem última da molécula misturada na Turquia. Não existe, nas bases públicas consultadas, um recorte que isole o fenômeno. Isso significa que o número europeu de dependência russa é, com toda a probabilidade, um piso – e que a diferença entre o que entra e o que é contado como russo não será resolvida por estatística, mas por decisão política em Ancara, que até hoje não deu sinal de que pretende tomá-la.