A França congela o salário público e os liceus param
A greve de 29 de setembro de 2026 deixou 338 liceus ainda afetados no balanço do fim do dia e 440 detidos, com as oito federações da função pública nas ruas. O orçamento de 2027, o último do mandato de Emmanuel Macron, congela o ponto de índice dos servidores (unidade de referência utilizada pelo Estado francês para calcular o salário-base dos funcionários públicos) e deixa a nova alta das despesas militares fora da meta de déficit.
Uma ocupação de liceu em setembro é rotina na França. O que mudou em 2026 foi o relógio. Na terça-feira, 29 de setembro de 2026, o Ministério da Educação contava 338 liceus ainda afetados no balanço do fim do dia, 45 deles bloqueados e 46 sob tentativa de bloqueio, e o ministro do Interior, Laurent Nuñez, anunciou 440 detidos, a maioria menores de idade, com dois terços dos casos levados a custódia policial, 48 agentes de segurança feridos e sete arremessos de ácido clorídrico contra as forças da ordem. As oito federações da função pública convocaram mais de 170 manifestações país afora para o mesmo dia, a dois dias da apresentação do orçamento de 2027 ao Conselho de Ministros.
Os feridos não fecham entre as fontes porque cada contagem mede um lado. O ministério do Interior, que conta as forças de ordem, falava em 48 agentes feridos na terça-feira; o ministério da Educação contava ao menos 10 servidores da educação feridos – um professor agredido no Nord, um diretor atingido por um disparo de artefato pirotécnico nos Hauts-de-Seine – e 31 feridos entre alunos e pessoal no balanço do fim do dia. A região da Île-de-France, presidida por Valérie Pécresse, registrou 75 liceus afetados, 20 deles atingidos por confrontos ou depredações, e 20 feridos. Na quarta-feira, 30, o ministro da Educação somou 76 feridos entre alunos e pessoal nos dias de mobilização, um número que não bate com nenhum dos outros porque não mede o mesmo universo.
O movimento nasceu nos arredores de Paris e se espalhou pelo país. Na terça-feira, 29, houve confronto com a polícia em Lille, Rennes, Nantes, Paris, Marselha, Bordéus e Lyon, com lixeiras incendiadas, abrigos de ônibus depredados e gás lacrimogêneo contra alunos que atiravam garrafas e pedras. A pauta dos liceus é material: turmas lotadas, falta de professores, prédios sem condições de uso e horários que ocupam o dia inteiro. Professores e bombeiros cruzaram os braços no mesmo dia.
Na função pública, a greve foi desigual e as contas das duas partes não se cruzam. O ministério da Educação registrou 11,47% do seu pessoal em greve e 13,71% entre os professores; o sindicato do primeiro grau estimava 40% nesse segmento e o do segundo grau, 38%. Nas ruas, a Confederação Geral do Trabalho (CGT) contou mais de 300 mil manifestantes no país, com 70 mil em Paris, enquanto o ministério do Interior contou 206 mil no país e 30 mil na capital. O comunicado que convocou a jornada, assinado pelas oito federações em 3 de setembro de 2026, pede reajuste geral, indexação do ponto de índice à inflação e meios orçamentários à altura das missões dos serviços públicos.
Na segunda-feira, 28 de setembro de 2026, o ministro do Interior contava 164 detidos e, entre os feridos do dia, 12 membros das forças de ordem, oito professores (três deles diretores) e uma dúzia de alunos. No mesmo dia, os ministros do Interior e da Educação anunciaram que as forças de ordem interviriam em caso de violência e de bloqueio total, com “uso proporcional da força”, e passaram a descrever os bloqueios como “violências urbanas”, termo que o governo francês emprega para episódios de violência nos bairros populares. O ministro da Educação, Édouard Geffray, acusou deputados de esquerda da França Insubmissa de “instrumentalização política da juventude” e Jean-Luc Mélenchon respondeu que o primeiro-ministro havia “ordenado a repressão”; Sébastien Lecornu falou em escalada irresponsável.
O ponto de índice
O ponto de índice é a unidade sobre a qual se calcula o salário de todo servidor público francês. Congelá-lo por um ano, como o governo propõe para 2027, significa que nenhum reajuste geral será concedido. Lecornu anunciou a medida em entrevista ao Le Figaro publicada em 17 de setembro de 2026, estimando ganhar € 2 bilhões com o congelamento e prometendo conversas com os sindicatos para que os salários mais baixos não fiquem expostos à inflação. O ajuste inteiro é um esforço de € 54 bilhões, e a meta de déficit do projeto é de 4,8% do Produto Interno Bruto (PIB) fora a nova alta das despesas militares; com ela, a meta chega a 5%.
A meta de déficit que o governo apresenta é de 4,8% do Produto Interno Bruto fora a nova alta das despesas militares – e de 5% com ela.
Depois da greve
A conta não termina no dia da greve. A Union syndicale lycéenne (USL), a principal organização dos alunos do ensino médio francês, e a Union étudiante convocaram a recondução dos bloqueios para a quinta-feira, 1º de outubro de 2026 – o mesmo dia em que o Conselho de Ministros recebe o orçamento – e uma manifestação nacional em 6 de outubro de 2026. As oito federações da função pública ainda não marcaram a próxima jornada nacional.
O projeto que o Conselho de Ministros recebe em 1º de outubro de 2026 dirá quanto a França pretende gastar em cada área; a meta de déficit que o acompanha já diz o que fica fora da conta. Enquanto isso, 338 liceus terminaram a terça-feira, 29 de setembro de 2026, ainda afetados e 440 pessoas, a maioria menores de idade, acabaram detidas – e a manifestação nacional seguinte já está marcada para 6 de outubro de 2026.