Reserva de petróleo dos EUA volta ao nível de 1982
Em sete meses, Washington queimou quase um terço da reserva estratégica de petróleo na guerra contra o Irã e promete recompor o estoque com petróleo venezuelano que ainda não controla.
Na semana encerrada em 18 de setembro de 2026, a Reserva Estratégica de Petróleo dos Estados Unidos (SPR, na sigla em inglês) guardava 284,6 milhões de barris, segundo a Administração de Informação Energética dos Estados Unidos (EIA, na sigla em inglês): 400 mil a menos que na semana anterior e 121 milhões a menos que um ano antes. O estoque recuou a 283,8 milhões de barris na medição posterior do Departamento de Energia dos Estados Unidos (DOE, na sigla em inglês), o piso desde outubro de 1982.
A sangria vem de março de 2026, quando Donald Trump autorizou a liberação de 172 milhões de barris, dentro da maior operação coordenada da história da Agência Internacional de Energia (AIE): 400 milhões de barris liberados por 32 países. O motivo foi a guerra que os Estados Unidos e Israel iniciaram contra o Irã em 28 de fevereiro de 2026, respondida por Teerã com o fechamento do estreito de Ormuz, por onde passam 20% do petróleo e do gás natural liquefeito comercializados no mundo.
A reserva, com capacidade para 714 milhões de barris em 60 cavernas de sal entre a Louisiana e o Texas, opera agora perto do mínimo: a lei estadunidense fixa 252,4 milhões de barris como piso operacional, e o intervalo aceito no setor vai de 250 milhões a 300 milhões. Cerca de 133 milhões dos barris liberados saíram como empréstimos a petroleiras – Shell, Vitol e Trafigura –, contratadas a devolver 1,25 barril para cada barril retirado. Para Ben Cahill, analista de energia do Conselho do Atlântico, centro de estudos sediado em Washington, insistir nas liberações nesse ritmo é “uma medida que se derrota sozinha”.
Washington gastou em sete meses o colchão recomposto desde 2023 – e penhorou a reposição num petróleo que ainda não saiu do subsolo.
O precedente de Biden
Washington já tratou a reserva como arma contra preço alto. Em março de 2022, após a eclosão do conflito russo-ucraniano, o governo de Joe Biden autorizou a retirada de 180 milhões de barris, a maior até então, com o barril a US$ 139. O estoque caiu de 566 milhões em 2022 para 347 milhões em junho de 2023 e foi recomposto aos poucos, até 415 milhões em fevereiro de 2026.
A aposta venezuelana
A reposição, desta vez, depende do acordo anunciado em 28 de agosto de 2026 com o governo interino de Delcy Rodríguez na Venezuela, que Trump apresentou como “o maior acordo de petróleo da história”: controle majoritário estadunidense de campos com cerca de 65 bilhões de barris em reservas, o equivalente a 141% das reservas comprovadas dos Estados Unidos. Trump prometeu reabastecer a reserva “em breve” com esse petróleo, mas Caracas ainda não informou quais campos serão explorados nem quais empresas vão operá-los.
A reserva nasceu em 1975 como seguro contra outro embargo como o de 1973, e as retiradas anteriores foram frações do estoque: 17,3 milhões de barris usados na Guerra do Golfo, 20,8 milhões depois do furacão Katrina, 30,6 milhões na Guerra da Líbia. As retiradas de 2022 e de 2026 cortaram o estoque quase pela metade, de 566 milhões em 2022 a 283,8 milhões em setembro de 2026. O seguro virou munição de guerra de preços; a recompra depende de um acordo externo cujo petróleo continua no subsolo.