A Etiópia volta à guerra total
Sete grupos armados anunciaram uma aliança para remover Abiy Ahmed e retomaram ofensivas no Tigré, em Afar e na Amhara, sepultando na prática o acordo de Pretória de 2022.
A Etiópia voltou ao centro do noticiário com o anúncio de uma aliança de sete grupos armados contra o governo de Abiy Ahmed e a retomada de combates no norte. Para quem acompanha de longe, a cena parece súbita. Vista de dentro, ela fecha um ciclo de meio século sem solução.
O país tem cerca de 120 milhões de habitantes, o segundo maior contingente da África, e mais de 80 etnias dividindo um Estado central que quase sempre governou pela força. Do imperador Haile Selassie, deposto em 1974, à ditadura militar do Derg de Mengistu Haile Mariam, derrubada em 1991, Adis Abeba concentrou poder enquanto periferias como Tigré, Oromia, Amhara, Ogaden e Afar acumulavam ressentimento.
Em 1991, a Frente Popular de Libertação do Tigré (TPLF, na sigla em inglês), originária de uma minoria que representa cerca de 6% da população, tomou o poder por meio da coalizão Frente Democrática Revolucionária do Povo Etíope. Sob Meles Zenawi, a Etiópia cresceu e ganhou prestígio internacional, ao mesmo tempo em que o poder real ficava nas mãos da elite tigrínia. Para administrar a tensão, o regime consagrou o federalismo étnico, com 12 regiões de autonomia formal delimitadas por etnia, um desenho que deu voz local e, ao mesmo tempo, cristalizou a disputa por território e recursos.
A ruptura de 2018 e a guerra de 2020
O arranjo ruiu em 2018, quando protestos massivos, sobretudo oromos, levaram ao poder Abiy Ahmed, de origem oromo, celebrado como reformista e laureado com o Nobel da Paz de 2019 pela reaproximação com a Eritreia. Abiy desmontou a coalizão liderada pela TPLF, fundou o Partido da Prosperidade e empurrou a velha elite para a margem.
Em novembro de 2020, após o adiamento das eleições nacionais e a acusação de um ataque tigrínio a uma base federal em Mekelle, Abiy mandou a Força Nacional de Defesa da Etiópia (ENDF, na sigla em inglês) para o norte, com apoio de tropas da Eritreia e de milícias amharas. O que foi anunciado como operação localizada virou uma das guerras mais letais do século, com estimativa de cerca de 600 mil mortos apresentada pelo mediador da União Africana (UA), Olusegun Obasanjo, além de fome generalizada e deslocamento de milhões.
A guerra terminou em Pretória em novembro de 2022, mas nunca gerou ordem política nova. O Tigré ficou suspenso entre guerra e paz, com tropas eritreias e amharas ainda presentes no oeste, sem desarmamento completo e sem retorno pleno de deslocados, como registra o acompanhamento do conflito mantido pelo centro de estudos Conselho de Relações Exteriores.
Os antigos aliados viram inimigos
Paralelamente, os aliados de Abiy na guerra se voltaram contra ele. A milícia Fano, dos amharas, que havia lutado ao lado do governo contra o Tigré, recusou o desarmamento em 2023 e entrou em insurgência aberta. O Exército de Libertação Oromo (OLA, na sigla em inglês) manteve a guerrilha na região mais populosa do país. Em junho de 2026, Abiy renovou a maioria parlamentar do Partido da Prosperidade em eleição esvaziada pela guerra e pelo boicote oposicionista.
A novidade de setembro não é apenas o retorno da guerra no Tigré, e sim a fusão de frentes que o governo tratava como rebeliões locais isoladas.
Em 21 de setembro de 2026, sete grupos anunciaram a Aliança das Forças dos Povos Etíopes pela Sobrevivência, com objetivo declarado de remover Abiy e formar um governo de transição, segundo relato da emissora britânica BBC sobre a nova aliança. Compõem a frente a TPLF, o Movimento Nacional Fano, o OLA, a Frente de Libertação Nacional de Ogaden (ONLF, na sigla em inglês), a Frente Revolucionária de Unidade Democrática Afar, o Movimento de Libertação dos Povos de Benishangul e o Movimento Democrático dos Povos Gumuz, forças de metade das regiões do país, incluindo grupos que já lutaram entre si.
O que mudou nesta semana
Em 23 de setembro de 2026, dois dias depois do anúncio, a aliança saiu do papel. Forças tigrínias tomaram aeroportos federais no Tigré, incluindo o Aeroporto Internacional Alula Aba Nega em Mekelle, o que levou a Ethiopian Airlines a suspender voos para a região. Ofensivas foram lançadas contra posições federais em Afar e Amhara, com combates confirmados por quatro fontes independentes ouvidas pela agência Associated Press. A organização Human Rights Watch registra retomada de combates desde 1º de agosto de 2026, com ataques quase diários de drones. Em 19 de setembro, um ataque em Alamata, no sul do Tigré, matou ao menos 14 civis e feriu 22, segundo autoridades locais citadas pela análise da Al Jazeera sobre a aliança rebelde.
O governo acusa a TPLF de romper o acordo de Pretória e aponta financiamento da Eritreia, rival histórica. A TPLF diz agir em postura defensiva após bombardeios federais. Nenhum dos dois lados apresentou balanço verificável de baixas, e agências humanitárias ainda não divulgaram números de deslocados da nova rodada.
Por que importa agora
Se as frentes de Wollo, na Amhara, e do Tigré se conectarem, Adis Abeba perde a capacidade de enquadrar cada conflito como questão interna compartimentada, e as missões regionais perdem função de arbitragem. A Etiópia é a âncora demográfica do Chifre da África, e um colapso no centro contamina Sudão, Eritreia e Somália, além de travar corredores humanitários e comerciais do Mar Vermelho.
A pergunta que o caso deixa aberta é quem sustenta um novo acordo nacional quando o anterior ruiu sem ter sido cumprido e quando todos os atores relevantes escolheram, ao mesmo tempo, a via armada.