SAGIRE
Geopolítica antes das manchetes
·PT/EN
← Capa

Etiópia acusa Egito e Sudão de sustentarem a aliança rebelde

O chefe do Estado-Maior etíope, Birhanu Jula, diz que a frente de sete grupos não avança sem abastecimento do Egito e do Sudão e que a Eritreia serve de ponte. O Cairo nega; nenhuma das acusações foi verificada de forma independente.

O Exército etíope foi dado como tendo retomado Sekota, no norte da Amhara, no domingo, 27 de setembro de 2026, e o comando militar apresentou o momento como prova de contenção: a guerra no norte estaria sendo conduzida com “sabedoria e contenção”, segundo a Al Jazeera. Na mesma rodada de declarações, o chefe do Estado-Maior, Birhanu Jula, disse que o combate não se decide no terreno etíope. Ele se referia à Frente Popular de Libertação do Tigré (FPLT), que governa a região, e à vizinha Eritreia.

“Nem Shaebia (a Eritreia) nem a FPLT conseguem nada sozinhas, mesmo aliadas, a menos que sejam empurradas, apoiadas e abastecidas pelo Sudão, pelo Egito e por outras potências externas”, disse o chefe do Estado-Maior da Força Nacional de Defesa da Etiópia (ENDF, na sigla em inglês), em fala veiculada no canal do Exército no YouTube e registrada pelo France 24.

A declaração circulou em veículos etíopes entre sexta-feira, 25 de setembro de 2026, e domingo, e o diário árabe Asharq Al-Awsat registrou a acusação a Cairo e Cartum ao noticiar a resposta egípcia. Jula também atribuiu à Eritreia a função de ponte entre os padrinhos externos e os grupos armados que operam dentro da Etiópia.

A resposta egípcia veio de uma fonte sem nome

O Egito rejeitou o que chamou de insinuação, e uma fonte egípcia qualificada como informada disse ao Asharq Al-Awsat que as falas do comandante etíope são “alegações que não merecem resposta” e que o Cairo “não tem nada a ver com essa polêmica”. A mesma fonte recomendou que as autoridades etíopes cuidem das próprias crises internas em vez de atribuir a agentes externos as suas falhas domésticas, e reafirmou uma política de não interferência nos assuntos internos de outros países.

Especialista em temas estratégicos e militares egípcios, Samir Ragheb apresentou o argumento que interessa a quem nega: se o Cairo quisesse intervir na Etiópia para pressioná-la em outras questões, teria feito isso em 2020, quando a guerra anterior estava no auge e antes de a barragem do Nilo Azul ter suas fases de construção concluídas. Ragheb atribuiu a menção etíope a apoio externo à geografia, já que o Tigré faz fronteira ao norte com o Sudão e com a Eritreia.

A acusação não cai no vazio

O Cairo e Cartum acumulam disputas abertas com Adis Abeba, e é isso que dá peso à fala do comandante mesmo sem prova.

O Egito depende do Nilo para sua água doce e perdeu a batalha diplomática pela barragem do Renascimento. A Grande Barragem do Renascimento Etíope (GERD, na sigla em inglês), no Nilo Azul, foi inaugurada em 9 de setembro de 2025, após etapas de enchimento feitas sem o acordo vinculante que Cairo e Cartum pediam. Em setembro de 2026, uma nova troca de declarações azedou o tema: o ministro da Água e Energia etíope, Habtamu Itefa, disse que os etíopes haviam tomado “a chave do Abay”, o nome etíope do Nilo Azul, e que o rio não poderia mais correr como quer. O chanceler Badr Abdelatty evocou o direito egípcio à autodefesa, e o ex-assistente do ministério das Relações Exteriores Mohamed Hegazy leu nas declarações um aviso de que qualquer barragem adicional no Nilo Azul seria ato hostil injustificado e desafio existencial à segurança hídrica do país. A Etiópia tem três projetos anunciados no Nilo Azul, Karadobi, Mandaya e Beko Abo, com capacidade combinada maior que a da GERD, e o Cairo não tem instrumento coercitivo para impedir a construção.

Com o Sudão, a ruptura é mais recente e mais crua. Desde maio de 2026, Cartum acusa a Etiópia de ter permitido que drones partissem do aeroporto de Bahir Dar para atingir alvos sudaneses, incluindo o aeroporto internacional de Cartum, e o governo sudanês chamou seu embaixador em Adis Abeba para consultas. O Ministério das Relações Exteriores etíope rejeitou as acusações como infundadas e respondeu que o Exército sudanês armou e financiou combatentes tigrínios, além de sustentar que o Sudão serve de base para forças antietíopes. Em 17 de setembro de 2026, o chefe do Estado-Maior sudanês, Yasser al-Atta, foi além e disse que a Etiópia busca explorar a guerra civil sudanesa para tomar território na fronteira. Não há, dos dois lados, prova pública que encerre a disputa, e investigações sobre bases em território etíope usadas por forças sudanesas, como a da Reuters de fevereiro de 2026 e a do laboratório da Escola de Saúde Pública de Yale de abril de 2026, seguem contestadas por Adis Abeba.

O problema da tese para quem a enuncia

A acusação de patrocínio externo tem uma dificuldade prática: o Exército que a faz não é um exército pobre. O France 24 descreve o governo etíope na guerra com cerca de 500 mil soldados, arsenal de drones e apoio externo relevante, notadamente dos Emirados Árabes Unidos. Se a regra é que quem recebe de fora não decide a própria guerra, Adis Abeba teria de explicar como a sua própria vantagem material escapa dela.

A fala de domingo é, acima de tudo, um ato diplomático. Atribuir a uma rebelião o patrocínio de três Estados vizinhos é o que permite negar a ela estatuto político, tratar a frente de sete grupos como instrumento de terceiros e reivindicar o direito de defender a integridade territorial contra agressão de fora. O vocabulário de cada lado faz esse trabalho: o comando etíope fala em “sabedoria e contenção”, a FPLT fala em “guerra defensiva” contra o que chama de invasão aberta, e boa parte da imprensa internacional chama o conjunto de guerra civil, rótulo que apaga exatamente os padrinhos que Adis Abeba diz existir.

O que a guerra já mudou sem padrinho nenhum

Os degraus do último mês não dependem da acusação para serem verificáveis. Em 20 de setembro de 2026, sete grupos anunciaram a Aliança das Forças dos Povos Etíopes pela Sobrevivência, com o objetivo declarado de remover o primeiro-ministro Abiy Ahmed e instalar uma administração de transição, juntando forças que se combateram na guerra de 2020 a 2022, entre elas a FPLT, o Movimento Nacional Fano e o Exército de Libertação Oromo. Em 22 de setembro de 2026, ataques aéreos federais, alguns com drones, atingiram cinco escolas no Tigré, e um ataque de morteiro em Kobo, na Amhara, matou civis, segundo o alto-comissário da Organização das Nações Unidas (ONU) para os Direitos Humanos, Volker Türk. Em 23 de setembro de 2026, forças tigrínias tomaram três aeroportos federais no Tigré, e a Ethiopian Airlines suspendeu os voos para a região. Os combates se espalharam pelas linhas de Kobo-Tumuga, Zata, Dinqa, Sekota e Tonsa, e os serviços de internet e telefonia foram cortados em quase todo o Tigré.

O Exército etíope sustenta ter matado 272 combatentes tigrínios e ferido outros 260 no Wollo do Norte. Türk também registrou um “recrutamento forçado em massa de civis, inclusive crianças, pela FPLT em todo o Tigré”, o que coloca a outra parte sob o mesmo tipo de acusação que ela faz ao governo. O enviado da ONU para o Chifre da África, Guang Cong, tenta reabrir o diálogo previsto no acordo de Pretória, de novembro de 2022, com apoio da União Africana, enquanto o secretário-geral António Guterres acompanha o caso.

O que limita os dois lados é simétrico na forma e desigual no conteúdo. A aliança não tem comando único e reúne projetos que se excluem, como a independência da Oromia e a recuperação do poder pela FPLT, e precisaria de coordenação para sustentar uma ofensiva por meses. O governo tem a vantagem material e diz preferir não empenhá-la, o que também descreve o limite de quem precisa conter várias frentes ao mesmo tempo em várias regiões do país.

O acordo de Pretória governava a relação entre duas partes. A fala do comandante etíope pede que a próxima ordem seja negociada também no Cairo, em Cartum e em Asmara, e que a disputa pela água do Nilo seja lida como parte da guerra. Ninguém apresentou a prova de que os padrinhos existem, e o custo de erguer essa hipótese em acusação oficial já está registrado: a partir de 27 de setembro de 2026, os vizinhos da Etiópia passaram a ter de responder publicamente se sustentam a queda de Abiy Ahmed. Só o Cairo respondeu que não. A conta de quem abastece quem segue aberta no terreno, e é ela que decide quanto dura esta guerra.