Espanha aprofunda crise imobiliária e vai às ruas
O despejo de uma inquilina de 87 anos que vivia há 70 anos no mesmo apartamento em Madri converteu a Puerta del Sol em acampamento, opôs a prefeitura do Partido Popular ao governo central e empurrou dois decretos de habitação para votação no Congresso em 2 de outubro de 2026.
Na manhã de 23 de setembro de 2026, a polícia arrombou a porta de um apartamento no bairro do Retiro, em Madri, e retirou de maca uma moradora de 87 anos. Maria del Carmen Abascal vivia havia 70 anos no mesmo imóvel. O fundo Urbagestión havia multiplicado o aluguel por cinco, de €500 para €2.650 por mês, e a União de Inquilinos de Madri, a organização que articula inquilinos contra despejos na capital espanhola, transformou o caso em símbolo nacional.
O símbolo funcionou. No sábado, 26 de setembro de 2026, dezenas de milhares de pessoas marcharam em Madri contra a crise da moradia. A Delegação do Governo, o órgão que representa o governo central espanhol na capital, contou 25 mil manifestantes; a União de Inquilinos, 300 mil, segundo a agência France-Presse. Ao fim do ato, parte dos manifestantes ocupou a Puerta del Sol e montou um acampamento que permanece na praça. Eram pouco mais de 100 barracas no sábado; cerca de 300 na terça-feira, 29 de setembro de 2026, com vários milhares de pessoas reunidas à noite; cerca de mil acampados em 500 barracas na madrugada de quarta-feira, 30 de setembro de 2026, na quarta noite da ocupação. A decisão dos acampados é permanecer na praça ao menos até sexta-feira, 2 de outubro de 2026.
O aluguel passou de €500 para €2.650 por mês – e uma moradora de 87 anos saiu de casa em maca.
Maricarmen, como a chamam os vizinhos, vai voltar para casa. O acordo costurado depois do despejo prevê contrato de oito anos e aluguel limitado a 30% da renda líquida dela. A União de Inquilinos classificou o desfecho de vitória histórica. A vitória é individual e contratual, e foi exatamente isso que lhe deu força política: um documento assinado demonstra que o valor cobrado antes era reversível.
O pulso institucional
O acampamento dividiu as instituições que governam Madri. A prefeitura, comandada por José Luis Martínez-Almeida, e o governo da Comunidade de Madri, chefiado por Isabel Díaz Ayuso, ambos do Partido Popular (PP), exigiram da Delegação do Governo a dissolução imediata da concentração, ameaçam levar o caso à Justiça e ordenaram o fechamento da estação de trem da Sol. A Delegação respondeu que o direito de reunião ampara os acampados e manteve a autorização. Grupos de extrema-direita passaram a se organizar em redes sociais para invadir o acampamento, o que levou os manifestantes a montar turnos próprios de vigilância.
O confronto tem data e endereço político. A Espanha realiza eleição geral em 2027, e a moradia virou o terreno onde o PP regional e o governo central medem forças diante do eleitorado da capital. A prefeitura que pede a dissolução governa a cidade onde o despejo aconteceu; o governo central que invoca o direito de reunião sustenta no Congresso os decretos que prometem impedir o próximo despejo.
Os decretos e a sexta-feira
Na terça-feira, 29 de setembro de 2026, o Conselho de Ministros aprovou dois decretos-lei de habitação que seguem para votação de convalidação no plenário extraordinário do Congresso nesta sexta-feira, 2 de outubro de 2026. O pacote prevê renovação automática dos contratos de aluguel, prorrogação de dois anos para os contratos que vençam antes de 2028, teto de 2% no reajuste anual, regulação dos aluguéis de temporada e por quarto, suspensão dos despejos de famílias vulneráveis até 31 de dezembro de 2030, imposto sobre o valor agregado (IVA) em alíquota super-reduzida de 4% para a habitação protegida e linhas de aval do Instituto de Crédito Oficial (ICO), o banco público de fomento espanhol. A votação é de convalidação e o texto ainda pode mudar; a renovação automática é o ponto de maior rejeição entre os dois decretos.
O fundo da crise está medido pelo banco central. O Banco de España reconhece um déficit de 750 mil moradias, a diferença entre os domicílios criados desde 2021 e as moradias concluídas no período, segundo o relatório anual da instituição, e calcula que apenas 10% a 15% das famílias inquilinas têm poupança e renda para assumir uma hipoteca sem comprometer mais de 35% da renda. A conta oficial descreve um mercado em que a compra é inalcançável para a maioria dos que alugam e o aluguel sobe sem teto para quem não pode comprar.
O despejo que deveria encerrar um contrato abriu a semana em que a Espanha decide o que um contrato pode conter. Maricarmen tem um acordo assinado, a Puerta del Sol tem mil acampados e o Congresso tem dois decretos sobre a mesa. Se a convalidação passar em 2 de outubro de 2026, a renovação automática transforma em regra geral o que o caso dela conquistou por exceção. Se a votação travar, a praça já demonstrou que o despejo deixou de ser um procedimento privado entre fundo e inquilina e virou o fato político que ocupa o centro de Madri.