O Brasil em disputa: a ofensiva entra no segundo turno
Flávio Bolsonaro venceu o primeiro turno com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula, diferença de 2,2 milhões de votos. O Partido Liberal fez a maior bancada do Senado desde 1988 e a maior bancada partidária da Câmara. A abstenção, de 21,08%, é a maior desde 1998. A decisão é em 25 de outubro.
O primeiro turno terminou depois da meia-noite de 4 de outubro de 2026, com a pergunta que o Palácio do Planalto passou a campanha inteira tentando evitar: haverá segunda votação, e o presidente chega a ela atrás. Com 99,99% das urnas apuradas, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) confirmou o senador Flávio Bolsonaro, do Partido Liberal (PL), com 56.104.268 votos, 47,03% dos votos válidos, contra 53.876.617 votos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, do Partido dos Trabalhadores (PT), 45,16%, conforme o resultado oficial. A diferença é de 2.227.651 votos, 1,87 ponto percentual. A segunda votação é em 25 de outubro.
Em São Paulo, o presidente falou como quem tinha apostado em uma vitória que não veio. “Confesso que estava convencido que ia ganhar as eleições em primeiro turno”, disse Lula, que anunciou uma campanha nova a partir de segunda-feira (5), para discutir “qual é o Brasil que eu acho que tem que ser construído”. “O segundo turno é a hora da prova dos nove. É hora da gente mostrar a verdadeira fotografia do Brasil [...] e do Brasil que a gente quer.”
Flávio acompanhou a apuração com a família em uma casa do Lago Sul, em Brasília, e leu o resultado como sentença. “Não poderia estar mais realizado de identificar que o Brasil quer mudança. Fiquei feliz com o resultado em todas as regiões”, disse o senador, que também criticou as interferências do Supremo Tribunal Federal (STF) na eleição.
A noite, no entanto, não decidiu apenas quem entra na reta final à frente. As urnas entregaram à direita bolsonarista o Congresso que ela foi buscar, com o Senado no centro do plano; registraram a maior abstenção desde 1998; e deram base eleitoral a uma disputa que o governo brasileiro passou o ano tratando como alvo de uma ofensiva externa com nome próprio, documentos e alvos declarados.
O Congresso que saiu das urnas
O Senado era um dos principais alvos da campanha, e a eleição deixou o partido do candidato a um terço de distância dos demais. O PL elegeu 19 senadores e passará a ter 28 das 81 cadeiras a partir de fevereiro de 2027, a maior bancada em início de legislatura desde 1988, segundo a Agência Senado. A segunda maior bancada, do PT, tem nove senadores. Depois vêm o Movimento Democrático Brasileiro (MDB), com oito, Republicanos e Progressistas, com seis cada um, União Brasil e Partido Social Democrático (PSD), com cinco cada um, Partido Socialista Brasileiro (PSB), com quatro, Partido Novo, com três, Podemos e Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), com dois cada um, e Rede Sustentabilidade e Partido Democrático Trabalhista (PDT), com um cada. Um senador eleito não tem partido.
Em cinco unidades da Federação o eleitor escolheu dois senadores do PL: Rio de Janeiro, Santa Catarina, Mato Grosso do Sul, Rondônia e Distrito Federal. Dois deles são Michelle Bolsonaro, eleita pelo Distrito Federal ao lado de Bia Kicis, e Carlos Bolsonaro, eleito por Santa Catarina ao lado de Carol de Toni, que terão a mãe e o irmão do ex-presidente Jair Bolsonaro no plenário junto do patriarca condenado. Em Santa Catarina, Carol de Toni teve 2.630.319 votos, 33,47% dos válidos, e Carlos Bolsonaro, 1.991.041, 25,34%, conforme o Estadão: com Jorge Seif, eleito em 2022, o PL passa a ocupar as três cadeiras do estado. Das 54 vagas renovadas, 40 ficaram com senadores novos e 14 com reeleitos, entre os 32 que tentaram voltar.
As mulheres eleitas para o Senado são 12, o maior número da história, e a bancada feminina deve chegar a 18 cadeiras no início da próxima legislatura.
Na Câmara, o PL fez 121 deputados, a maior bancada partidária da Casa, segundo as tabelas do TSE. A maior bancada, somando federações, é a da federação União Progressista, formada por União Brasil e Progressistas, com 104 deputados. A federação Brasil da Esperança, que reúne PT, Partido Comunista do Brasil (PCdoB) e Partido Verde (PV), tem 81. Vêm depois PSD, com 42, MDB e Republicanos, com 41 cada um, Podemos, com 20, a federação PSDB Cidadania, com 18, PDT, com 16, PSB e a federação Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) e Rede, com 15 cada uma, a federação Renovação Solidária, com 12, e Avante, com sete.
A explicação para essa aritmética está na forma como o voto chegou às urnas. Nos estados onde a direita venceu, o candidato a presidente, o governador, os dois senadores e os deputados federais do mesmo campo tiveram votações praticamente idênticas, com diferenças na casa dos milhares. “Eles votam em bloco”, resumiu o apresentador Breno Altman, no programa 20 Minutos, do Opera Mundi , na noite do primeiro turno. “Houve uma organização do voto que é de tirar o chapéu, que a esquerda não tem”, respondeu o analista político Beto Vasques, do Laboratório de Opinião Pública e Mídias Digitais (Labop). No Rio Grande do Sul, o PL elegeu o governador Luciano Zucco já no primeiro turno junto dos dois senadores. A lógica, porém, não se repete igual em 25 de outubro: sem a eleição proporcional e sem o arraste dos governadores, o bloco perde o motor que levou esse eleitor às urnas.
A conta que o calendário de 2027 vai cobrar é outra. Pelo menos 31 senadores eleitos defendem o impeachment de ministros do STF, segundo levantamento do Estadão. O Globo contou 34; somados aos 17 senadores em exercício que já se manifestaram, seriam 51, embora o título da matéria do Globo indique 50 integrantes (link). É a maioria simples da Casa, e a razão pela qual o Senado virou prioridade da campanha: cerca de cem pedidos de impeachment esperam decisão na gaveta do presidente da Casa, Davi Alcolumbre, do União Brasil do Amapá.
A eleição também decidiu quem fará as próximas nomeações da Corte. O próximo presidente indicará quatro ministros do STF: a vaga de Luís Roberto Barroso, ainda aberta depois da rejeição da indicação do advogado-geral da União, Jorge Messias, e as de Luiz Fux, Cármen Lúcia e Gilmar Mendes, que se aposentam até 2030. Hoje, dois ministros foram indicados por Jair Bolsonaro. Aliados do senador tratam a crise na Corte como a melhor oportunidade da campanha, e o coordenador da campanha, Rogério Marinho, é apontado como o nome do bolsonarismo para presidir o Senado a partir de 2027.
O muro de contenção
A comparação que Vasques fez na noite da apuração é com 2022. “Se em 22 o Lula conseguiu fazer um muro de contenção, eu acho que esse ano ele conseguiu fazer apenas uma redução de danos. Ele foi o líbero atrás da zaga”, disse. O avanço conservador de 2026 teria sido maior sem o presidente na cabeça da chapa: qualquer outro candidato da esquerda, na avaliação dele, colheria um resultado mais dramático.
A onda tem geografia, e ela não é a de 1989. O cinturão do agronegócio, o “agrob” que a conversa no programa desenhou sobre o mapa, atravessa o interior do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, São Paulo, parte de Minas Gerais, Tocantins, Goiás, Rondônia, Acre, Roraima e parte do Pará. É a região onde a população e a renda crescem mais e onde, na descrição do analista, se consolidam códigos culturais distintos dos do Nordeste, a região que segue votando progressista e onde Lula venceu com folga. O Sudeste funcionou como pêndulo: São Paulo e Minas Gerais, dois dos três maiores colégios eleitorais do país, somam perto de 40% do eleitorado nacional, e os dois terminaram com Flávio à frente.
A virada que o Brasil nunca viu
Se Lula virar, será a primeira vez. Nenhuma eleição presidencial brasileira teve virada no segundo turno desde 1989: em todas as disputas decididas em duas votações, quem chegou à frente na primeira ficou à frente na segunda, como mostrou o histórico do Estadão. A dificuldade tem número: o presidente chega ao dia 25 de outubro com 45,16% dos votos válidos, contra os 48,43% que somou no primeiro turno de 2022, quando ficou 5,23 pontos à frente de Jair Bolsonaro, que teve 43,20%, segundo o TSE.
O cenário geral medido antes da votação era de empate técnico: nas duas pesquisas que o Datafolha fez em setembro de 2026, com 4.003 entrevistas presenciais, Lula aparecia com 46% das intenções e Flávio com 44%, com 8% de brancos e nulos, segundo o Globo.
Para Vasques, as pesquisas não erraram. A média das últimas rodadas dava três pontos e meio de vantagem a Lula, e a urna entregou dois a Flávio. A Quaest, divulgada na véspera, foi a que mais se aproximou: previa 46% a 45% dos votos válidos, e a apuração deu 45% a 47%, os dois números dentro da margem. No Datafolha, o número de Lula bateu, mas o de Flávio não: o instituto dava 42% e ele fez 47%. Na Atlas, a variação de Flávio também saiu da margem: 44,1% na véspera, 47% na urna. “Uma pesquisa, quando dá um valor dentro da margem de dois pontos para mais ou para menos, não erra, porque estatisticamente ela estaria dentro do intervalo”, disse o analista.
A hipótese que ele vinha defendendo desde antes da votação é que essa eleição funciona como um terceiro turno de 2022, com o voto útil do segundo turno antecipado para o primeiro. Se é assim, a melhor bússola era a simulação de segundo turno, e não a intenção de voto de primeiro turno: nas 12 rodadas do Datafolha e nas 10 ou 11 da Quaest, a média, a mediana e a moda apontavam empate técnico, com Lula cerca de dois pontos à frente, que é a distância de 1,8 ponto com que ele venceu Jair Bolsonaro na segunda votação de 2022.
O que deslocou o noticiário na última semana, na avaliação dele, foi o cancelamento do debate da emissora de televisão Globo marcado para a noite de quinta-feira 1º. A emissora desistiu do confronto depois de duas decisões judiciais tomadas a horas do programa: a ministra Estela Aranha, do TSE, proibiu a exibição do púlpito vazio de Lula, que havia desistido do debate, e as perguntas dirigidas a ele; e o ministro Gilmar Mendes, do STF, determinou a inclusão do candidato Renan Santos, do Missão, fora dos critérios de convite da emissora. Flávio anunciou que não iria e chamou as decisões de censura, e o primeiro turno de 2026 passou a ser o primeiro desde 2006 sem a presença de um dos candidatos mais bem colocados em debate televisionado, conforme a Folha de S.Paulo. Nos grupos qualitativos, disse Vasques, o eleitor primeiro recriminou o senador por ter desmarcado em cima da hora; depois, quando a campanha passou a chamar o episódio de censura do Supremo, o alvo virou Lula. “O presidente tinha conseguido sair daquela agenda do STF, de repente ela voltou pela porta dos fundos.”
A Quaest captou o movimento nos dois maiores colégios na última semana: em Minas, a vantagem de Lula virou empate; em São Paulo, virou vitória de Flávio, que terminou o primeiro turno com 12.922.023 votos no estado, contra 9.505.413 de Lula, diferença de 3,4 milhões, e vitória em 605 dos 645 municípios paulistas, com Lula à frente em 39, entre eles a capital, onde teve 46,58%, segundo o g1. “Teve muito eleitor que acabou votando no Flávio a reboque do voto no Tarcísio”, avaliou o analista, sobre o arraste do governador reeleito de São Paulo.
O caminho de Flávio passa por uma transferência que já foi medida antes da votação. Em pesquisa divulgada em 23 de setembro de 2026, o Datafolha mostrou que, entre os eleitores dos quatro candidatos fora da polarização, o senador atraía 43% das intenções contra 30% de Lula, com 26% de brancos e nulos, segundo a Folha de S.Paulo. O detalhamento apontava 48% a 25% entre os eleitores de Romeu Zema, do Partido Novo, 43% a 22% entre os de Renan Santos, do Missão, 43% a 30% entre os de Ronaldo Caiado, do PSD, e 41% a 35% entre os de Augusto Cury, do Avante. Os quatro somavam 15 pontos nas pesquisas de setembro de 2026, e o voto útil foi o argumento final da campanha do senador, que passou a reta final pedindo a consolidação do campo da direita em um turno único.
A campanha não trata apoio como voto. A avaliação interna, segundo o Globo, é que declarações de Cury, Zema e Caiado dão força política, mas apenas parte dos eleitores acompanha a orientação. Renan Santos está fora das contas depois de criticar Flávio durante o primeiro turno. Com o grupo de Caiado a expectativa é menor, e há dúvida sobre o presidente do PSD, Gilberto Kassab, que não se posicionou. No mapa, o senador vai buscar o Nordeste, onde perdeu em todos os nove estados, e conta com a entrada mais frequente do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, do Republicanos, já reeleito. Lula venceu em 12 dos 27 estados: os nove do Nordeste, o Amazonas, o Pará e o Amapá. Flávio venceu nos outros 15, entre eles São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, os três do Sul e os quatro do Centro-Oeste, segundo o mapa da Reuters.
Os 33 milhões de ausentes
A abstenção foi de 21,08%, a maior desde 1998 e 0,13 ponto acima do primeiro turno de 2022. Mais de 33 milhões de eleitores não compareceram, e dos 158.745.463 aptos a votar, 78,92% foram às urnas, segundo o Estadão. Mato Grosso do Sul registrou a maior taxa, de 23,85%, e o Ceará, a menor, de 15,33%. A eleição de 2022 teve 20,95% de ausências no primeiro turno; a de 2018, 20,33%; a de 2014, 19,39%.
Quem foi votar também declarou menos entusiasmo. Pesquisa Travessia feita para o Estadão e divulgada em 2 de outubro de 2026 apontou que quatro em cada dez brasileiros iriam às urnas movidos por desânimo, revolta ou descrença, e que 20,2% ainda não tinham certeza de que compareceriam.
Vasques trabalha com três tipos de eleitor pendular: o puro, que oscila diretamente entre os dois candidatos e ficou cada vez mais raro; o conservador, que oscila entre se abster, votar em branco ou nulo e votar em Flávio; e o progressista, que oscila entre Lula e a abstenção. Em todos os casos, o noticiário é o que move o voto, e é por isso que o episódio do debate pesou na conta dele.
Sobre a ausência, a leitura do analista é que a abstenção ficou quase estável em relação a 2022 e que ela tende a crescer na segunda votação, porque a campanha proporcional e as eleições para governador, que funcionam como máquina de tirar o eleitor de casa, saem de cena. O ausente típico do campo lulista, eleitor de baixa escolaridade e renda, é, na avaliação dele, o mais sensível à mobilização em 25 de outubro, quando há um voto só a digitar. Ele levantou ainda uma hipótese que ficou sem resposta na madrugada: parte dos caciques da direita pode não ter interesse na vitória de Flávio, porque a família Bolsonaro continuaria a controlar o antipetismo e a projetar oito anos no poder. “Muitos caciques da direita não querem o Flávio eleito, preferem um Lula moribundo, frágil, contra as cordas.”
A ofensiva tinha endereço
Uma semana antes da votação, o governo brasileiro transformou a suspeita em procedimento. Em 1º de outubro, a Advocacia-Geral da União (AGU) acionou a Polícia Federal (PF) e a Procuradoria-Geral da República (PGR) para investigar o suposto financiamento do governo de Donald Trump a ações de interferência na eleição brasileira, depois de o jornal britânico The Guardian revelar que o Departamento de Estado destinou US$ 1 milhão, cerca de R$ 5,1 milhões, a um projeto voltado a grupos que contestam a atuação do STF. A notícia-crime assinada pelo advogado-geral da União, Jorge Messias, pede que se apure quem participou da operação e quem receberia o dinheiro no Brasil, conforme a Agência Brasil.
O pedido não nasceu naquela semana. Em 23 de setembro de 2026, a campanha de Lula já havia ido ao TSE pedir que a Corte se pronunciasse sobre o risco de dinheiro estrangeiro influenciar o resultado, e o alerta do Planalto era anterior: começou em janeiro de 2026, depois da operação militar estadunidense que capturou Nicolás Maduro em Caracas, e cresceu com o apoio público de Trump ao candidato da situação em Honduras e com o pacote de US$ 20 bilhões do Tesouro dos Estados Unidos para a Argentina de Javier Milei. Em abril de 2026, o monitoramento se estendeu a Hungria, Peru e Colômbia. Na leitura do Planalto, a pressão sobre o Pix, sobre a regulação das plataformas digitais e sobre os minerais críticos faz parte do mesmo movimento, segundo o Poder360.
O que Washington pediu está documentado. Em 2025, o governo dos Estados Unidos entregou ao Itamaraty uma lista de 21 pontos que ia além do comércio: quatro deles tratavam de questões político-institucionais brasileiras, entre elas a exigência de que “dissidentes políticos” pudessem participar da eleição presidencial de 2026, como revelou o Poder360. A ofensiva tem nome. A Estratégia de Segurança Nacional enviada ao Congresso norte-americano em novembro de 2025 tem uma seção intitulada “Hemisfério Ocidental: o Corolário Trump à Doutrina Monroe” e afirma que os Estados Unidos vão “reafirmar e aplicar a Doutrina Monroe para restaurar a preeminência norte-americana no Hemisfério Ocidental”. Um mês depois, após a captura de Maduro, Trump rebatizou a doutrina: “A Doutrina Monroe é coisa grande, mas nós a superamos, e por muito. Agora chamam de doutrina Donroe”, disse em 3 de janeiro de 2026.
O instrumento dessa política é o Escudo das Américas, lançado em 5 de março de 2026 e com cúpula inaugural dois dias depois, em Miami, sob o Comando Sul das Forças Armadas dos Estados Unidos. Em 22 de setembro de 2026, mesmo dia do discurso de Lula na Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), a coalizão divulgou a Declaração Conjunta sobre a Defesa da Soberania Hemisférica, assinada por 15 governos, com uma lista de 24 organizações criminosas tratadas como “narcoterroristas transnacionais”. No item 16 está o Primeiro Comando da Capital (PCC); no 17, o Comando Vermelho (CV). O Brasil não assina a declaração e ficou fora da coalizão junto com o México. As duas facções brasileiras já haviam sido designadas terroristas globais especialmente designados pelo Departamento de Estado em 28 de maio de 2026, e organizações terroristas estrangeiras em 5 de junho de 2026.
Contra o Brasil, o outro braço da ofensiva é comercial. A investigação da Seção 301 da Lei de Comércio de 1974 foi concluída em 15 de julho de 2026 e impôs tarifa adicional de 25% sobre a maior parte das importações brasileiras, com isenções para carne bovina, café instantâneo, suco de laranja e aeronaves civis, em vigor desde 22 de julho. O Planalto repudiou a decisão e classificou o dia como “um marco lastimável” nas relações entre os dois países, numa nota à imprensa em que atribuiu o tarifaço à “ativa colaboração da família Bolsonaro” e anunciou o acionamento da Lei de Reciprocidade e do mecanismo de solução de controvérsias da Organização Mundial do Comércio (OMC).
Tem-se, até aqui, um documento que pede eleição sem restrição a “dissidentes”, uma coalizão que lista facções brasileiras sem a participação do Brasil, uma tarifa aplicada sobre temas como o Pix e a regulação das plataformas, e um repasse de US$ 1 milhão que a AGU quer que a PF e a PGR expliquem. No balanço da votação, o presidente do TSE, Kassio Nunes Marques, disse que as equipes de monitoramento de riscos internacionais não identificaram “nenhum indicativo concreto de interferência internacional” no processo eleitoral, conforme o TSE.
Washington também entrou no cálculo da reta final, e a leitura de Vasques é que a Casa Branca “foi muito hábil nas últimas duas semanas” e entrou num “silêncio sepulcral”: falas de Trump ou de Marco Rubio naqueles dias ajudariam Lula, e o governo estadunidense passou a operar “por baixo dos lençóis”. Com um segundo turno em que o candidato apoiado sai na frente, disse o analista, o apoio tende a continuar, na forma mais discreta possível, que é a mais eficaz.
As plataformas e a regra que ficou menor
A eleição de 2026 foi a primeira no Brasil com regras escritas para inteligência artificial (IA). A Portaria 463 do TSE, de 27 de julho de 2026, obrigou os provedores com mais de cinco milhões de usuários ativos mensais no país a entregar, até 16 de agosto de 2026, planos de conformidade eleitoral que descrevessem o tratamento de conteúdo gerado por IA, a moderação de redes de comportamento inautêntico coordenado e a transparência de anúncios. As plataformas entregaram os planos dentro do prazo, conforme o Conjur. A lista de quem entregou, divulgada pelo site JOTA, reúne Google, Discord, Kwai, LinkedIn, Mercado Livre, Meta, OpenAI, Pinterest, TikTok, Telegram e X.
O desenho inicial era mais duro. A minuta do TSE previa prazos menores, mais detalhamento, auditoria externa e relatórios mensais. A versão final, assinada pelo presidente da Corte, Kassio Nunes Marques, ampliou os prazos, reduziu as exigências e trocou os relatórios mensais por um informe anual, conforme apurou o site JOTA.
O que as plataformas prometeram está escrito nos planos. No documento que apresentou ao TSE em setembro de 2026, a Meta previu rótulos e informações de contexto para conteúdos falsos, remoção de conteúdo nocivo, proibição de anúncios políticos no WhatsApp e regras para o uso responsável de inteligência artificial generativa, conforme a Agência Brasil. O que circulou é outra coisa. Um relatório da Agência Lupa divulgado em julho, que revisou 632 publicações de cinco ciclos eleitorais, mostrou que 73,1% das verificações de boatos virais tratavam de urnas eletrônicas, apuração, boletins de urna e o funcionamento do TSE, e que 90,9% dos 286 conteúdos virais analisados receberam a etiqueta de falso, segundo o estudo Anatomia da Desinformação Eleitoral.
No dia da votação, a Corte teve de agir sozinha: Nunes Marques determinou que o WhatsApp bloqueasse a circulação de um vídeo falso sobre as urnas, com multa de R$ 100 mil por hora de descumprimento da decisão.
Os evangélicos e o voto que a campanha foi buscar
O eleitorado evangélico, que corresponde a 29% do total, é a base mais sólida do senador. Pesquisa Datafolha de abril deu a Flávio 49% das intenções contra 25% de Lula no primeiro turno, e 61% contra 30% na simulação de segundo turno. Entre os católicos, que são 49% da amostra, o quadro se inverte: Lula tinha 43% e Flávio, 30%, com 51% a 41% no segundo turno.
A migração das lideranças para o candidato do PL foi registrada na campanha. O bispo Robson Rodovalho, da igreja Sara Nossa Terra, resumiu o movimento: “Nenhum exército prevalece dividido. De uma forma ou de outra, vamos ter que nos afinarmos.” O pastor Marco Feliciano lembrou a Flávio, em culto, que em 2022 os coordenadores da campanha de Jair Bolsonaro contavam com 90% dos evangélicos e descobriram que cerca de 30% não votaram nele.
O compromisso cobrado tem endereço no Congresso. A Frente Parlamentar Evangélica (FPE) presidiu a sessão que aprovou, em 28 de maio de 2026, a proposta de emenda à Constituição (PEC) 5/2023, do deputado Marcelo Crivella, do Republicanos, que estende a imunidade tributária das igrejas à compra de bens e à contratação de serviços por templos, creches, asilos, comunidades terapêuticas e seminários. O texto passou em dois turnos, por 385 a 93 e 368 a 96, com a orientação favorável do PL e do bloco formado por União Brasil, PSD, MDB, Progressistas, PSDB, Podemos e Republicanos, e está no Senado, conforme a Rádio Senado. A Fazenda estima que a ampliação eleve em cerca de 0,5 ponto percentual a alíquota do imposto sobre valor agregado criado pela reforma tributária.
É esse eleitorado que elegeu Michelle Bolsonaro e Carlos Bolsonaro, e é ele que a promessa de mudança na composição do STF alcança mais diretamente: dos quatro ministros que o próximo presidente indicará, três se aposentam nos próximos cinco anos.
O que a votação de 25 de outubro decide
O segundo turno decide quem governa a resposta. Lula chega a ele com o discurso que articulou na ONU em 22 de setembro de 2026, quando nomeou os mecanismos da ofensiva e disse que soberania não se terceiriza, e com um Congresso que, na melhor das hipóteses, será adversário: a legislatura que toma posse em 1º de fevereiro de 2027 tem 28 senadores do PL, 121 deputados do PL e 51 senadores dispostos a abrir processo contra ministros do STF. Flávio chega com 2,2 milhões de votos de vantagem, com a maior bancada do Senado desde 1988 no partido que o lançou e com a expectativa de que os votos dos candidatos derrotados da direita se somem aos dele.
Na leitura que Vasques apresentou na noite do primeiro turno, a segunda votação será decidida menos por moderação ou radicalização do que por uma guerra de rejeições. “A campanha de desconstrução do adversário é mais importante que qualquer coisa”, disse. O alvo é o senador: as más companhias, a condenação do pai, a inexperiência de gestão e a imagem de dependência da família, num eleitorado que, segundo ele, já demonstrou que quer mudar e ainda não comprou a ideia de que Flávio é uma mudança segura. Lula teria três semanas e, na conta do analista, pelo menos três debates, na Band e na Globo, para contrastar projetos e legados, numa eleição plebiscitária: a pergunta que o eleitor respondeu no primeiro turno é se o presidente merece mais quatro anos, e o trabalho da campanha é deslocá-la para a alternativa. O alerta que ele deixou é sobre o terreno: “Os ventos da mudança são dominantes, o espírito do tempo está do lado da direita.”
Nada disso, porém, é automático. A eleição presidencial brasileira nunca virou no segundo turno, e é essa estatística que o governo tenta transformar em campanha nas três semanas que faltam. A abstenção recorde, os 26% de brancos e nulos entre os eleitores dos candidatos fora da polarização e a resistência de boa parte do eleitorado evangélico a obedecer a orientação de pastores são os números que mantêm a decisão aberta. O que já está decidido é o outro lado: quem ganhar em 25 de outubro vai governar com o Congresso eleito em meio à ofensiva política de Washington e com uma maioria no Senado que trata o Supremo como alvo.