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Geopolítica antes das manchetes
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25 mil pessoas enviadas para países que não são os deles

Trinta e cinco acordos, 410 milhões de dólares prometidos e uma corte federal dizendo na sexta-feira que a política é ilegal. O governo americano montou uma arquitetura de remoção que paga governos e agências da ONU, e o resultado até aqui é custo sem política.

Na sexta-feira, uma corte federal americana decidiu que a política de deportar pessoas para países que não são os deles é ilegal. No mesmo fim de semana, uma investigação de 24 redações revelou o tamanho do que havia sido construído: 35 acordos com governos estrangeiros, mais de 25 mil pessoas enviadas para países onde não têm vínculo algum, e pelo menos 410 milhões de dólares prometidos para fazer a engrenagem girar.

As duas notícias, juntas, descrevem um sistema que segue operando depois de perder no tribunal.

O que foi construído

A investigação, coordenada pela Forbidden Stories, de Paris, e publicada pelo Guardian, pela AFP, pela France24 e pelo Washington Post, entre outros, é o retrato mais completo de uma política que funcionou em sigilo. Desde que voltou ao poder, em 2025, o governo de Donald Trump firmou 35 acordos que permitem deportar migrantes, refugiados e solicitantes de asilo a países terceiros, segundo o Guardian. Os registros internos do próprio governo, obtidos pelo Washington Post, mostram que a administração autorizou ou prometeu pelo menos 410 milhões de dólares para viabilizar os acordos com 31 países, a maioria na África e na América Latina.

O dinheiro tem endereço. Dos 410 milhões, 81 milhões foram reservados para os governos signatários, por contratos de via rápida que passaram ao largo dos requisitos de direitos humanos da ajuda externa americana, conforme o jornal, o que provocou objeção de parlamentares democratas. O restante foi destinado a organizações de ajuda: mais de 178 milhões para a Organização Internacional para as Migrações e 123 milhões para o Alto Comissariado da ONU para Refugiados. Palau e Eswatini estão entre os 13 países signatários que receberam compensação direta, segundo os mesmos documentos.

Quem negocia e paga é uma divisão pouco conhecida do Departamento de Estado, o Escritório de Remigração, criado em 2025 dentro do Bureau de População, Refugiados e Migração. O bureau que existia para assistência humanitária passou a se dedicar, nas palavras de um de seus dirigentes, a “implementar a agenda migratória do presidente”. Um mapa do escritório datado de março de 2026 mostra que, dos 54 países africanos, 49 foram abordados e nove estavam em negociação.

O que a política produziu até aqui é uma máquina de gastar com precisão administrativa e um resultado que não fecha a conta.

O dinheiro contra o resultado

Os mesmos documentos expõem a distância entre o que foi prometido e o que foi entregue. A Camarões foram reservados 30 milhões de dólares, em apoio a operações da ONU no país, em troca de aceitar mil migrantes. Os Estados Unidos enviaram 44. À República Democrática do Congo foram prometidos 75 milhões para receber dois mil; chegaram 15, e os voos para Kinshasa estão suspensos por causa do surto de Ebola.

Não há, nesses números, nenhuma escala compatível com o custo. Há pagamento por capacidade de receber que quase não foi usada, e há países que assinam por dinheiro que não controlam, já que a maior parte do valor não vai para eles e sim para agências internacionais que operam em seu território.

A decisão que o programa ignorou

Na sexta-feira, o Tribunal de Apelações do Primeiro Circuito confirmou, por unanimidade, a decisão de fevereiro que considerou a política ilegal. O fundamento é de devido processo: o Departamento de Segurança Interna viola direitos ao deportar pessoas para terceiros países sem lhes dar aviso suficiente e sem chance real de alegar medo de voltar, o que é exatamente o que a lei de refúgio prevê.

A decisão vale para um programa que já mandou milhares de pessoas a países que não são os seus. É um veto judicial sobre um fato consumado, e é a terceira vez nesta década que o desenho da política migratória americana se apoia em interpretação própria da lei para depois descobrir o limite no tribunal.

A parte que quase não se discute

A investigação registra um detalhe que incomoda mais do que os números: as duas agências da ONU que recebem dinheiro do arranjo têm mandato de proteção, e receberam críticas por causa dessa vinculação. Uma arquitetura de remoção que transfere recursos para organismos criados para proteger refugiados resolve, para o governo que a desenhou, dois problemas de uma vez: executa a política e desloca a responsabilidade para quem tem a obrigação legal de proteger.

O caso que o Washington Post reconstituiu é o retrato disso. Um iraniano convertido ao cristianismo foi enviado ao Panamá. Não havia plano para o que vinha depois, porque o acordo previa o envio, não a chegada.

O que fica

A política segue sendo construída enquanto é contestada na Justiça, e a próxima rodada diplomática já está marcada: às margens da Assembleia Geral da ONU, em Nova York, autoridades do Departamento de Estado recebem delegações africanas e latino-americanas, segundo o Washington Post. É a mesma semana em que a corte disse que o instrumento é ilegal.

Para os países que aceitam o dinheiro, o cálculo é de curto prazo e o custo é difuso: uma promessa orçamentária em troca de receber pessoas sem vínculo, sem rede e sem previsão de retorno. Para os deportados, o cálculo é o inverso e não tem prazo. A conta de uma política que ninguém quis assinar fica com quem foi enviado, e é essa a única parte do arranjo que não tem via rápida.