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O procurador que Washington sancionou e a Bolívia prendeu

Quatro dias separam a sanção do Departamento de Estado contra Roger Mariaca, acusado de proteger o narcotráfico, de sua prisão e afastamento definitivo pela Assembleia boliviana. No intervalo, o governo de Rodrigo Paz mudou a lei, 14 pessoas foram presas e representantes estrangeiros apareceram dentro do Legislativo.

Quatro dias separam a sanção do Departamento de Estado contra Roger Mariaca, acusado de proteger o narcotráfico, de sua prisão e afastamento definitivo pela Assembleia boliviana. No intervalo, o governo de Rodrigo Paz mudou a lei, 14 pessoas foram presas e representantes estrangeiros apareceram dentro do Legislativo. Mariaca conduzia uma investigação que alcançava Fernando Cerimedo, consultor ligado à campanha de Paz e aos círculos políticos de Donald Trump.

Em 28 de setembro de 2026, Washington revogou vistos de autoridades bolivianas e classificou Mariaca como alvo de sanções, acusando-o de solicitar e aceitar propina para facilitar o narcotráfico e ajudar criminosos violentos a escapar da Justiça. Mariaca negou e chamou a medida de interferência política. Dois dias depois, agentes do Centro Especial de Inteligência Policial o prenderam no aeroporto de Viru Viru, em Santa Cruz. Outros 13 funcionários e autoridades foram detidos. O governo boliviano afirmou ter desmontado uma estrutura de proteção institucional ao narcotráfico ligada ao uruguaio Sebastián Marset e apresentou evidências próprias contra os acusados. O Ministério Público, por sua vez, chamou a prisão de “sequestro” e denunciou abusos na operação. Mariaca dirigia a instituição desde 2024 e supervisionava uma investigação contra Fernando Cerimedo, argentino que havia trabalhado para a campanha de Paz. Cerimedo está preso preventivamente desde agosto de 2026, acusado de tentativa de feminicídio, e também é investigado por suposta proteção a voos ligados ao narcotráfico. Na mesma semana em que Washington sancionou Mariaca, a ex-companheira de Cerimedo divulgou fotografias dele com Donald Trump Jr. e outros nomes ligados ao movimento Make America Great Again (MAGA). Em março de 2026, o próprio Departamento de Estado havia publicado uma fotografia de Cerimedo ao lado de Paz e do secretário de Estado estadunidense, Marco Rubio, durante a cúpula do Escudo das Américas, na Flórida.

Enquanto Mariaca estava preso, a Assembleia aprovou uma alteração legal que permitiu sua suspensão definitiva. Durante a sessão, parlamentares denunciaram a presença de pessoas identificadas como funcionárias das embaixadas da Argentina, do Peru e dos Estados Unidos. Um dos presentes portava um computador e códigos de resposta rápida (QR) que, segundo as parlamentares, estariam sendo usados para oferecer dinheiro a legisladores em troca de votos pela destituição de Mariaca. Uma checagem posterior afirmou que os códigos serviam para compartilhar contatos de WhatsApp. A natureza dos códigos, porém, é secundária diante do fato político central: representantes de governos estrangeiros estavam dentro do Parlamento durante uma votação destinada a afastar o procurador-geral da Bolívia. Mariaca foi suspenso por 113 votos a 11, com três abstenções e um voto em branco. Na madrugada seguinte, José Armando Urioste Viera foi escolhido como procurador-geral interino. Washington, que havia transformado Mariaca em alvo poucos dias antes, comemorou publicamente a operação.

O episódio ocorre enquanto os Estados Unidos reafirmam abertamente sua pretensão de predominância sobre o Hemisfério Ocidental. A administração Donald Trump recuperou a linguagem da Doutrina Monroe e passou a tratar a região como prioridade estratégica, em uma política que ganhou o apelido de “Donroe”. A Bolívia não está isolada desse movimento: Washington amplia sua pressão diplomática, militar e econômica sobre governos latino-americanos enquanto procura conter a presença de China, Rússia e outros atores no continente. Ao mesmo tempo, a posição estadunidense no sistema internacional mudou depois de décadas de guerras e intervenções no Oriente Médio e na Ásia. O resultado é uma política externa cada vez mais concentrada na região que Washington historicamente considera sua esfera de influência. Na Bolívia, essa política encontra um governo que se aproxima dos Estados Unidos, enfrenta uma crise econômica e social e reorganiza instituições do Estado em meio à pressão sobre seus adversários. A prisão de Mariaca, sua rápida remoção e a celebração estadunidense do resultado não são apenas acontecimentos domésticos: são um episódio concreto da disputa pela reorganização política do continente.

A sequência ajuda a explicar por que o caso boliviano importa. Washington sanciona o procurador-geral; dois dias depois, ele é preso; enquanto está detido, o governo altera a lei que permite seu afastamento; a Assembleia o remove; representantes estrangeiros estão presentes durante a votação; e o governo estadunidense celebra o resultado. Ao mesmo tempo, o homem investigado por Mariaca havia trabalhado para a campanha do presidente boliviano e mantinha conexões documentadas com o círculo político de Trump. Nenhum desses fatos existe isoladamente. Eles fazem parte de uma história mais longa de intervenção e disputa pela América Latina e de uma nova ofensiva estadunidense para reafirmar sua primazia no hemisfério. O caso Mariaca é, portanto, menos uma anomalia da política boliviana do que um sintoma de uma transformação maior: à medida que Washington procura recuperar terreno estratégico, a América Latina volta a ocupar o centro de sua política de poder.

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