SAGIRE
Geopolítica antes das manchetes
·PT/EN
← Capa

Os aliados que pararam de esperar Washington

Macron recebeu Carney num arquipélago francês vizinho do Canadá e falou em gás canadense para a Europa. A associação com a União Europeia vem pela porta do artigo 217, e o instrumento é comércio, energia e minerais críticos.

O primeiro-ministro canadense, Mark Carney, foi recebido por Emmanuel Macron no arquipélago francês de Saint-Pierre e Miquelon, na costa atlântica do Canadá, no domingo. Foi a primeira visita de um presidente francês ao território desde 2014 e a primeira de um premiê canadense em qualquer tempo. Os dois anunciaram cooperação mais estreita em energia, defesa, espaço e Ártico, e Macron foi direto sobre o motivo do gesto: disse que os projetos canadenses de gás natural liquefeito podem ajudar a Europa, e que são importantes para ela.

O encontro aconteceu poucas semanas depois de Trump publicar um mapa da América do Norte com os Estados Unidos, o Canadá, a Groenlândia, a Islândia, o México, a América Central e o Caribe pintados com a bandeira americana, sob a legenda “United States of America”. Guadeloupe, Martinica e o próprio Saint-Pierre e Miquelon apareciam incluídos. Macron disse que não precisa reafirmar a soberania francesa todos os dias só porque “as pessoas têm ideias estranhas ou dizem coisas estranhas”.

O instrumento é jurídico, não declaratório

A parte que importa desse movimento está nos artigos, não nos discursos. O Canadá negocia uma associação com a União Europeia que não é adesão, e o artigo 217 do Tratado de Funcionamento da União Europeia permite exatamente isso: um acordo de associação com países terceiros, com direitos e obrigações recíprocos, sem passar pela revisão de tratados que uma entrada formal exigiria. A análise do Chatham House descreve o desenho como “acoplamento sem fusão”, um arranjo que entrega boa parte do que Carney quer sem abrir o processo longo de mudança dos tratados europeus.

O Canadá já vinha montando essa arquitetura por etapas. Em fevereiro de 2026 se tornou o primeiro país não europeu a entrar na iniciativa europeia de defesa SAFE; em maio foi o primeiro líder de fora do continente a participar da cúpula da Comunidade Política Europeia, na Armênia; em setembro, Carney discursou no Parlamento Europeu, em Estrasburgo, e se reuniu com o primeiro-ministro britânico, Andy Burnham, em Liverpool, para tratar de defesa, energia, inteligência artificial e minerais críticos.

O Canadá não está tentando sair da órbita americana. Está tentando precificar sua exposição a ela.

E a exposição é grande. Cerca de sete de cada dez dólares que o Canadá exporta vão para os Estados Unidos, segundo o Chatham House, e a negociação comercial entre os dois países ruiu no fim de agosto. Washington impôs uma tarifa adicional de 50% sobre cerca de 28 bilhões de dólares canadenses em mercadorias; Ottawa respondeu com taxas de até 50% sobre o mesmo valor em produtos americanos. Quando Carney falou em “aliança única” com os europeus, em Toronto, foi explícito ao dizer que não busca entrar no bloco. “O objetivo não é a autossuficiência”, disse. “É a resiliência coletiva.”

Trump reagiu ao plano chamando-o de “risível” e avisando que, se considerasse a iniciativa “em parte um ato hostil”, imporia tarifas muito sérias ou deixaria de comerciar com a Europa em muitos itens. É a resposta que dá a medida do que está em jogo: uma associação técnica, sem exército e sem moeda, incomodou o suficiente para virar ameaça comercial.

O contraponto que impede a leitura errada

Há um risco analítico aqui, e ele deve ser dito. Ver esse movimento como a formação de um bloco anti-americano é ler demais. No mesmo ciclo, o vice-premiê da Nova Zelândia, Winston Peters, pediu publicamente um papel americano forte no Pacífico, segundo a Reuters. E o próprio Carney descreveu sua proposta como forma de dar a países expostos a pressão econômica de grandes potências mais liberdade de manobra, e não como construção de um campo adversário.

O que está em curso é mais estreito e mais durável do que um realinhamento: é a camada intermediária do sistema de alianças procurando seguro. Energia, minerais, defesa e acesso a mercado são os instrumentos disponíveis, e nenhum deles exige ruptura com Washington. Basta reduzir o grau de dependência de uma única decisão.

O que observar

O que mede o gesto de Saint-Pierre e Miquelon é logística, não diplomacia: se o gás natural liquefeito canadense começar a chegar à Europa em volume, e não majoritariamente à Ásia como hoje, o encontro terá mudado uma rota e não apenas produzido uma foto. O mesmo vale para os minerais críticos que o Canadá tem e a Europa precisa.

Enquanto isso, a cúpula entre Trump e Xi Jinping, na quinta-feira, seguirá concentrando a atenção do mundo. O que o domingo mostrou é que a parte do sistema que não está naquela mesa já começou a se mexer, e que ela está usando tratados, tarifas e terminais de gás para isso. Alianças se deslocam alguns centímetros por vez, dentro de acordos que quase ninguém lê.