A CDU ficou fora de um parlamento pela primeira vez e a Esquerda tomou Berlim
As duas últimas eleições estaduais do ano deram à AfD o segundo estado em duas semanas, tiraram a CDU de um parlamento estadual pela primeira vez e colocaram a Esquerda no comando da capital. O governo de Friedrich Merz perdeu nas duas pontas da mesma noite, e o partido que sustentou a República Federal por oitenta e um anos é o que está sendo esvaziado.
O calendário eleitoral alemão de setembro terminou com duas urnas na mesma noite, e o resultado preliminar aponta para direções opostas: no nordeste, a AfD (Alternativa para a Alemanha) venceu a eleição do parlamento de Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental com 38,2% dos votos, repetindo o sucesso de 6 de setembro na Saxônia-Anhalt, segundo a Reuters; na capital, a Esquerda (Die Linke) chegou ao primeiro lugar pela primeira vez, com 25,7%, conforme o resultado preliminar divulgado pela autoridade eleitoral e reportado pela tagesschau e pelo MDR.
As duas eleições têm em comum o tamanho do perdedor. Em ambas, os partidos que sustentam o governo federal de Friedrich Merz saíram menores do que entraram, e o país que a Europa espera ver financiando a própria defesa entra no outono com menos base eleitoral do que tinha na véspera.
O leste sem a CDU
Em Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental, a CDU ficou com 4,9% dos votos e não entrou no parlamento estadual, abaixo da cláusula de barreira de 5%. Segundo a AP, é o pior resultado da sigla em uma eleição estadual nos seus 81 anos de história; em 2021, o partido havia feito 13,3%. A AfD ficou em primeiro lugar, com 38,2%, e o SPD da governadora Manuela Schwesig, em segundo, com 35,5%, superado pela primeira vez desde 1994. A Esquerda teve 6,5%, os Verdes 5,7%, o BSW 4,8% e o FDP 1,0%, com participação de 78,1%, segundo a NDR.
Os números do instituto infratest dimap, citados pela NDR, mostram como os votos se moveram: o SPD perdeu cerca de 47 mil eleitores para a AfD e recebeu 25 mil vindos do eleitorado da CDU. Entre os que votaram no SPD, 49% disseram que não o teriam feito sem Schwesig.
O cálculo pós-eleitoral é onde a noite fica mais dura para o sistema político alemão. As três siglas que recusam governar com a AfD, SPD, Esquerda e Verdes, somam 47,7% dos votos, menos da metade. O MDR registra que Schwesig pode continuar governando e que, ao contrário do que se desenhou na Saxônia-Anhalt, não há para a AfD uma opção de poder no estado. O candidato do partido, Leif-Erik Holm, reivindicou o direito de formar governo e disse à ARD que conversaria “naturalmente com todos os outros partidos”.
A CDU construiu sua identidade recente em torno da recusa de qualquer acordo com a extrema direita, a muralha que a imprensa alemã chama de Brandmauer. Em Mecklemburgo, o partido que dava nome a essa muralha não está no parlamento para defendê-la.
A CDU passou oitenta e um anos sendo o partido que garantia maioria. Em Mecklemburgo, saiu do parlamento onde essa maioria se formava.
A capital virou à esquerda
Em Berlim, a Esquerda dobrou o resultado de 2023, de 12,2% para 25,7%, e alcançou o melhor desempenho de sua história na cidade, segundo a tagesschau. A CDU caiu de 28,2% para 18,8% e o SPD, que governava com ela, de 18,4% para 12,1%, o pior resultado dos social-democratas na capital. A AfD subiu de 9,1% para 16,3%, seu melhor resultado em Berlim, e os Verdes fizeram 14,3%. O BSW ficou em 4,7% e não entrou. A coalizão CDU-SPD do Rotes Rathaus perdeu a maioria, e o cenário mais provável, segundo o MDR, é um governo liderado pela Esquerda com SPD e Verdes. A participação foi de 75,0%.
Uma eleição deu à extrema direita o primeiro lugar no leste; a outra entregou a capital à esquerda. Quem responde pelas duas é o mesmo governo federal, e é ele que aparece menor nas duas contagens.
O governo que perdeu as três
Merz chamou o resultado de “desastre” e disse que permanece como chanceler e presidente da CDU, mantendo o curso de reformas, segundo o MDR e a AP. Ele apareceu na sede do partido quinze minutos depois das primeiras projeções, gesto que o Il Sole 24 Ore leu como sinal de que pretende seguir. Dentro da própria CDU, o líder da bancada em Mecklemburgo, Rehberg, atribuiu a derrota à “política de Berlim” e à falta de empatia do chanceler, em declarações ao Tagesspiegel citadas pela NDR.
Em setembro, a CDU não venceu nenhuma das três eleições estaduais do calendário. A AfD, que reivindica o rótulo de “partido do povo” nas palavras da copresidente Alice Weidel, citada pela AFP, cresceu no leste; a Esquerda, que nunca havia sido a maior força em Berlim, cresceu na capital. Os dois polos do sistema partidário alemão avançaram em direções opostas na mesma noite, e o centro por onde o governo federal respira ficou estreito nos dois lugares.
O que a Alemanha leva para Bruxelas
Um Landtag não move linha do orçamento federal, e a política externa alemã não se decide em Schwerin nem na Alexanderplatz. O que as duas urnas apresentam é uma conta de legitimidade: o governo que teria de sustentar no Bundestag o rearmamento, o financiamento da defesa e a continuidade do apoio à Ucrânia entra nessas votações com menos margem política do que tinha na véspera, num momento em que margem é justamente o que falta à Alemanha.
A Alemanha é a maior economia da União Europeia e o país cuja posição costuma definir o que o bloco consegue oferecer em dinheiro e em armas. Nenhuma dessas decisões está datada para setembro, e nenhuma delas depende de um voto em Schwerin. Todas elas, porém, passam por um Bundestag eleito em 2025 e por um governo que acaba de perder as três urnas do mês.
A eleição estadual alemã é um teste de humor, não de política externa: eleitor em Berlim e em Schwerin vota em escola, aluguel e transporte, e o resultado diz mais sobre o desgaste de quem governa do que sobre a posição do país no mundo. O que ficou medido no domingo é a disposição desse eleitorado em continuar sustentando o governo que pede a ele sacrifício.
É aí que a noite de domingo deixa uma pergunta sem data. Um sistema partidário que passa a ter três polos sem maioria, a direita radical no leste, a esquerda na capital e um centro que encolhe nos dois lugares, não decide sozinho o que a Alemanha fará na Ucrânia, em Bruxelas ou na OTAN. Decide, no entanto, quanto tempo e quanto capital político o governo que assina essas escolhas tem para gastar, e essa é a variável que nenhuma projeção eleitoral mede.