45 mil alunos alemães contra o alistamento militar
O serviço militar segue voluntário no papel, mas o Ministério da Defesa alemão já convoca jovens para exames médicos previstos para julho de 2027, inclusive quem respondeu no questionário que não queria servir. Nas ruas, os organizadores contaram mais de 45 mil alunos em cerca de 100 cidades; nos arquivos, os pedidos de objeção de consciência somam 5.862 só no primeiro semestre.
Nesta sexta-feira, 25 de setembro de 2026, a rede Schulstreik gegen Wehrpflicht (Greve Escolar contra o Serviço Militar Obrigatório) contou mais de 45 mil estudantes em cerca de 100 cidades alemãs, no quarto protesto nacional do movimento desde dezembro de 2025. A pauta desta vez tem uma data: o Ministério da Defesa começou a convocar jovens para o exame médico de aptidão antes do prazo que a própria lei fixou, e as primeiras convocações chegaram também a rapazes que haviam respondido no questionário oficial que não queriam servir, segundo o movimento.
A contagem é de quem organiza, e a polícia alemã trabalha do mesmo modo: divulgou apenas números locais, 2.400 pessoas em Berlim-Wedding, 700 em Munique, 600 em Kiel, 400 em Nuremberg, 200 em Stuttgart e 180 em Frankfurt, sem total nacional. A emissora pública regional Westdeutscher Rundfunk (WDR) registrou adesão abaixo do esperado em vários pontos do país, com cerca de 60 participantes no maior dos dois cortejos de Düsseldorf.
O que a lei de dezembro de 2025 monta
A Lei de Modernização do Serviço Militar foi aprovada no Bundestag em 5 de dezembro de 2025 por 323 votos a favor, 272 contra e uma abstenção, e está em vigor desde 1º de janeiro de 2026. O texto mantém suspenso o alistamento militar interrompido em 2011 e constrói a estrutura que permite restabelecê-lo. Desde janeiro, todo homem nascido a partir de 2008 é obrigado a responder a um questionário sobre disposição e aptidão, e a partir de 1º de julho de 2027 passa a ser obrigatório o exame médico (Musterung) para esse mesmo grupo. Quem não comparecer pode ser conduzido pela polícia ou examinado “por análise dos autos”. O serviço em si segue voluntário, e a cláusula de “serviço militar por necessidade” autoriza o Bundestag a decidir por uma convocação obrigatória caso as metas de efetivo não sejam alcançadas. A meta é passar dos 186 mil militares ativos de hoje para 260 mil até 2035, com 200 mil reservistas.
45 mil nas ruas é a conta dos organizadores; a do Estado alemão é outra: 5.862 jovens pediram para não servir.
A conta que o ministério preferiu não publicar
O balanço do próprio Ministério da Defesa, fechado em 18 de junho de 2026, mede o esforço: quase 300 mil questionários enviados aos jovens do ano-base, dos quais cerca de 153 mil a rapazes, para quem a resposta era obrigatória. O funil divulgado pela emissora pública Zweites Deutsches Fernsehen (ZDF) mostra o resto: cerca de 25% dos rapazes sinalizaram interesse inicial, 12,5% mantiveram o interesse depois do contato telefônico, 1.500 passaram pelo exame médico e cerca de 530 receberam proposta firme de alistamento. No primeiro trimestre, foram expedidas cerca de 229 mil convocações para responder ao questionário, com taxa de resposta acima de 90%, e mais de um em cada cinco rapazes que responderam declarou interesse no serviço. A multa prevista para quem ignora o questionário é de €250 e nunca foi aplicada. Em 1º de janeiro de 2026, o ministério classificou como documento de uso interno a contagem dos pedidos de objeção de consciência, justamente o número que mede a recusa. Ele continuou aparecendo por perguntas parlamentares da Esquerda: 3.494 pedidos só no primeiro trimestre de 2026, perto do dobro do ritmo do ano anterior.
O número que cresce do outro lado do balcão
O departamento federal responsável pelas objeções de consciência (BAFzA) registrou 5.862 pedidos no primeiro semestre de 2026, contra 3.879 em todo o ano de 2025 e 2.249 em 2024. Para comparar com um ano de referência do próprio tema: em 2011, o ano em que o alistamento militar foi suspenso, houve 4.348 pedidos. No mesmo intervalo cresceu o movimento inverso, o de quem volta atrás: 402 pessoas retiraram uma objeção de consciência já reconhecida no primeiro semestre, ritmo que projeta um recorde para 2026.
O que o protesto mede
O quarto protesto nacional teve um alvo local: em Hamburgo, a manifestação também apontou o exercício militar de três dias “Red Storm Charlie”, iniciado na véspera. As exigências do movimento, apresentadas nas mobilizações anteriores, são a revogação da lei, o fim do alistamento militar “pela porta dos fundos” e o encerramento das atividades de recrutamento da Bundeswehr nas escolas. A adesão de 45 mil pessoas em cerca de 100 cidades é contagem dos organizadores, não medição independente: as cidades com número oficial de participantes ficaram entre 180 e 2.400 pessoas, e a polícia alemã não soma um total nacional.
Na hipótese interpretativa desta matéria, o protesto de 25 de setembro de 2026 mediu menos o tamanho do movimento estudantil do que a pressa do Estado alemão. Um governo que afirma que ninguém será obrigado a servir não antecipa convocações em um ano e meio quando tem voluntários suficientes: as cerca de 1.000 convocações emitidas desde julho de 2026, antes do prazo legal de julho de 2027, reconhecem na prática que a via voluntária não entrega o efetivo prometido. O rótulo de voluntário permite ao governo alemão construir o cadastro sem pagar o preço político de tornar o alistamento obrigatório, e a cláusula de necessidade mantém a decisão disponível para o momento em que a conta do efetivo ficar insustentável. Quem contesta isso nas ruas é a mesma geração que o cadastro alcança primeiro.
O movimento estudantil alemão chegou ao quarto protesto nacional sem que a lei tenha recuado um parágrafo. O que a sexta-feira de 25 de setembro de 2026 assentou importa mais que o número de manchete: o cadastro funciona, os exames médicos começaram um ano e meio antes do prazo legal e a decisão sobre a convocação obrigatória segue parada no Bundestag, com a mesma coalizão que promete não convocar ninguém. As metas de 260 mil militares ativos e 200 mil reservistas dependem de voluntários, e o primeiro ano de cadastro fecha em 530 alistamentos contra 5.862 pedidos de objeção de consciência. Com esses números na gaveta, a decisão que o governo adia chega ao Bundestag no dia em que os voluntários faltarem, e quem respondeu ao questionário em 2026 será o primeiro a ser chamado.